
O episódio envolvendo o jornalista Isidro Canganjo, que permaneceu mais de 24 horas sob custódia policial no município do Calumbo, continua a levantar questionamentos sobre a solidariedade e a unidade dentro da classe jornalística angolana. Segundo relatos publicados por diferentes órgãos de comunicação, a detenção ocorreu quando o profissional procurava obter o contraditório do administrador municipal-adjunto para a Área Técnica, Infraestruturas e Serviços Comunitários de Calumbo, Joelson Joaquim da Costa Gomes.
O caso provocou a mobilização de jornalistas, activistas e membros de movimentos cívicos, que se concentraram junto da esquadra para exigir esclarecimentos e a libertação do profissional. Isidro Canganjo acabou por ser libertado depois de mais de 24 horas, tendo afirmado que apenas estava a exercer o seu trabalho jornalístico.
Diante deste episódio, surge uma questão que merece ser colocada à própria classe: que valor tem a solidariedade entre jornalistas quando alguns profissionais aceitam sentar-se à mesma mesa com figuras públicas directamente associadas a episódios que provocaram indignação entre os seus colegas?
Não se trata de transformar a profissão numa guerra pessoal, nem de impedir qualquer jornalista de dialogar com autoridades ou outras figuras públicas. O problema está na coerência entre aquilo que se defende publicamente e as atitudes que se adoptam nos bastidores.
Se um jornalista é detido enquanto procura exercer o direito de questionar uma autoridade pública, a resposta da classe deveria passar pelo esclarecimento dos factos, pela defesa do exercício profissional e pelo respeito pelas garantias legais — sem abandonar o contraditório e sem transformar a solidariedade em conveniência.
Até que ponto um prato de comida, um convite ou uma fotografia à mesma mesa pode ser mais importante do que a dignidade profissional de um colega?
E mais: até quando a classe jornalística continuará vulnerável diante daqueles que, segundo as denúncias publicadas, podem usar a sua posição de poder para constranger profissionais da comunicação social?
A liberdade de imprensa não pode ser defendida apenas quando somos vítimas. Deve ser defendida também quando o colega que está sob pressão não pertence ao nosso órgão, não é nosso amigo ou pensa de maneira diferente.
O caso de Isidro Canganjo deixa, por isso, uma discussão que ultrapassa o próprio jornalista: a classe precisa decidir se a solidariedade profissional é um princípio permanente ou apenas uma reacção momentânea quando as câmaras estão ligadas.
Porque, quando um jornalista é colocado sob pressão, a pergunta não deve ser apenas “quem é ele?”. A pergunta deve ser: “se fosse comigo, quem estaria ao meu lado?”
Reflexão do Jornalista Siona Júnior