
Angola amanheceu de luto com a notícia da morte de Dom Zacarias Kamwenho, Arcebispo Emérito do Lubango e laureado com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento. O prelado faleceu na sexta-feira, 29 de Maio de 2026, aos 91 anos de idade, vítima de doença, no Complexo Hospitalar Pedro Maria Tonha “Pedalé”, em Luanda.
Figura incontornável da história contemporânea angolana, Dom Zacarias Kamwenho destacou-se pela defesa firme e incansável da paz, da reconciliação nacional, dos direitos humanos e da dignidade do povo angolano. A sua voz tornou-se uma referência moral durante os anos mais difíceis do conflito armado que marcou o país.
Na manhã deste sábado, o Monsenhor Padre Alexandre prestou homenagem ao prelado, descrevendo-o como um pastor exemplar cuja vida foi um testemunho permanente de coerência entre a mensagem do Evangelho e a prática quotidiana.
Em comunicado, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) manifestou profundo pesar pelo falecimento de Dom Zacarias Kamwenho, elevando preces pelo seu eterno descanso e recordando o seu valioso contributo para a Igreja e para a sociedade angolana.

A reconciliação nacional foi uma das causas centrais do seu ministério. Presente em grande parte das suas homilias e intervenções públicas, esta mensagem tornou-se uma marca indelével da sua missão pastoral e do seu compromisso com a construção de uma Angola mais justa e unida.
Nascido em Chimbundo, em 1934, Dom Zacarias Kamwenho foi ordenado sacerdote em 1961 e nomeado Arcebispo do Lubango em 1995. Durante os anos mais intensos da guerra civil, esteve na linha da frente dos esforços pela paz, mobilizando consciências e promovendo o diálogo entre diferentes sectores da sociedade.
No final da década de 1990, juntamente com outros líderes religiosos e representantes da sociedade civil, ajudou a despertar no povo angolano uma crescente consciência da necessidade de pôr fim ao conflito armado, defender os direitos humanos e promover uma reconciliação nacional inclusiva.
Foi também presidente do Comité Ecuménico para a Paz em Angola, criado em 2000, organismo que reuniu a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, a Aliança Evangélica de Angola e o Conselho das Igrejas Cristãs de Angola. Através desta plataforma, desempenhou um papel fundamental na promoção do diálogo e da paz.
Dom Zacarias Kamwenho tornou-se uma das principais figuras de mediação entre as partes em conflito, contribuindo para o fim de uma guerra que, durante 27 anos, devastou Angola, provocou mais de meio milhão de mortes, milhões de deslocados e graves danos às infraestruturas, à economia e às instituições do país.
O reconhecimento internacional do seu trabalho chegou em 2001, quando o Parlamento Europeu lhe atribuiu o Prémio Sakharov. A distinção destacou a sua luta firme, imparcial e persistente pela paz, pela democracia e pelos direitos humanos. Kamwenho teve a coragem de criticar tanto o Governo como a UNITA, defendendo sempre o diálogo como caminho para a solução do conflito.
Muitos analistas e observadores atribuem aos esforços de Dom Zacarias Kamwenho e de outros líderes religiosos e civis uma influência decisiva no cessar-fogo de 2002 e no subsequente processo de paz que permitiu encerrar um dos capítulos mais dolorosos da história nacional.
Em 2003, renunciou à presidência da CEAST, mas manteve-se ativo na promoção da democracia, do Estado de Direito, das liberdades fundamentais e da reconciliação nacional. Mesmo após a sua jubilação, em 2009, quando foi nomeado Arcebispo Emérito do Lubango, continuou a dedicar-se ao serviço da comunidade, denunciando a corrupção, a erosão dos valores éticos e outros desafios herdados do longo período de guerra.
Com a sua partida física, Angola perde uma das suas maiores referências morais e espirituais. Fica, porém, o legado de um homem que fez da paz uma missão de vida e que ajudou a construir os alicerces da reconciliação nacional. A sua memória permanecerá como símbolo de coragem, diálogo e compromisso com o bem comum.
Jornalista Siona Júnior