
Cimeira reúne governadores de bancos centrais, ministros das Finanças, investidores e decisores políticos de vários países, com o objectivo de transformar a solidez do sector financeiro africano em crescimento económico, investimento e criação de empregos.
Luanda acolhe, desde esta terça-feira, 3 de Novembro, a sexta edição do Africa Financial Summit (AFIS 2026), um dos mais importantes encontros do sector financeiro africano, que reúne mais de 1.500 líderes financeiros, investidores, reguladores e responsáveis políticos de África e de outras regiões do mundo.
O evento, que decorre até quarta-feira, 4 de Novembro, realiza-se pela primeira vez na África Austral e num país de língua portuguesa, colocando Angola no centro das discussões sobre o futuro das finanças no continente africano.
Sob o lema «Fazer valer o capital: desbloquear o crescimento através das finanças africanas», a cimeira é organizada pelo Jeune Afrique Media Group, em parceria com a International Finance Corporation (IFC), instituição integrante do Grupo Banco Mundial.
O encontro pretende encontrar soluções para transformar a capacidade financeira das instituições africanas em investimentos concretos, capazes de impulsionar o crescimento económico, fortalecer as empresas, dinamizar a agricultura, financiar infra-estruturas e promover a criação de empregos.
FINANÇAS AFRICANAS PRECISAM DE CHEGAR À ECONOMIA REAL
Apesar dos avanços registados pelo sector bancário africano nos últimos anos, continua a existir um desfasamento entre a capacidade financeira das instituições e o financiamento disponível para as empresas e os sectores produtivos.
Segundo os dados apresentados pela organização, as receitas bancárias em África passaram de aproximadamente 83 mil milhões de dólares, em 2020, para mais de 100 mil milhões de dólares, em 2025. A rentabilidade dos capitais próprios atingiu igualmente 19%, quase o dobro da média mundial.
Entretanto, os empréstimos representam apenas cerca de 30% dos activos bancários do continente, evidenciando as dificuldades de acesso ao crédito por parte das empresas, dos agricultores e de outros sectores fundamentais para o desenvolvimento económico.
Neste contexto, os participantes defendem a necessidade de encontrar mecanismos que permitam transformar as poupanças africanas em investimentos produtivos, reforçar as parcerias entre os sectores público e privado e criar instrumentos financeiros capazes de responder às necessidades das economias nacionais.
ANGOLA NO CENTRO DO DEBATE FINANCEIRO CONTINENTAL
A edição de 2026 conta com a participação de 18 governadores de bancos centrais e oito ministros das Finanças, além de dirigentes de instituições bancárias, organismos de financiamento ao desenvolvimento e investidores internacionais.
Entre as principais personalidades presentes estão Makhtar Diop, director-geral da IFC; Sidi Ould Tah, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento; Serge Ekué, da BOAD; George Elombi, do Afreximbank; Jeremy Awori, do Ecobank; Luis Lélis, do Banco Angolano de Investimentos (BAI); Edoh Kossi Amenounvé, da BRVM; Samaila Zubairu, da Africa Finance Corporation (AFC); e Armando Manuel, do Fundo Soberano de Angola (FSDEA).
Angola está igualmente representada pela ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, e pelo governador do Banco Nacional de Angola (BNA), Manuel António Tiago Dias.
A realização da cimeira em Luanda representa uma oportunidade para reforçar a visibilidade do país no panorama financeiro africano, promover parcerias internacionais e atrair investimentos para diferentes sectores da economia nacional.
Na ocasião, Makhtar Diop destacou que África dispõe de capital, capacidade empresarial e talento, sendo necessário fortalecer os sistemas financeiros para transformar esses recursos em oportunidades de negócio, infra-estruturas e emprego.
Por sua vez, Amir Ben Yahmed, presidente executivo do Jeune Afrique Media Group e fundador da AFIS, defendeu que o sucesso das instituições financeiras africanas deve ser medido não apenas pela solidez dos seus balanços, mas também pela sua capacidade de financiar grandes projectos e contribuir efectivamente para a transformação das economias do continente.
DÉFICE DE FINANCIAMENTO DO DESENVOLVIMENTO PREOCUPA LIDERANÇAS
Outro dos principais assuntos em debate prende-se com o défice anual de financiamento do desenvolvimento em África, estimado em cerca de 400 mil milhões de dólares.
Na sua intervenção de abertura, o presidente do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento, Sidi Ould Tah, deverá defender uma maior coordenação entre instituições financeiras nacionais, regionais e continentais, no âmbito da Nova Arquitectura Financeira Africana.
Entre as soluções apontadas estão o reforço das garantias financeiras, os mecanismos de partilha de riscos e a expansão do financiamento em moeda local, com vista a facilitar o acesso ao capital e atrair mais investimento privado.
INTEGRAÇÃO FINANCEIRA E DESAFIOS PARA O FUTURO
Durante a cimeira serão igualmente apresentados os primeiros resultados do sexto Barómetro Deloitte-AFIS da Indústria Financeira Africana.
O estudo revela que a confiança das instituições financeiras permanece em 8 pontos numa escala de 10. Contudo, a integração económica e financeira do continente continua a enfrentar obstáculos.
De acordo com os dados divulgados, 69% dos inquiridos consideram que a implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) está a avançar demasiado lentamente, enquanto apenas 11% das instituições participantes estão ligadas ao Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidação (PAPSS).
Na quarta-feira, 4 de Novembro, os trabalhos prosseguem com um painel de governadores de bancos centrais, que deverá abordar as políticas monetárias, os mecanismos de regulamentação e os sistemas de pagamento necessários para facilitar a circulação de capitais e estimular a economia real.
A AFIS 2026 pretende, assim, transformar o diálogo entre os principais actores financeiros africanos em compromissos concretos, capazes de fortalecer o sistema financeiro continental e colocar o capital ao serviço do desenvolvimento económico e social de África.