
Chega uma altura em que a inquietação se torna incomensurável. Insistir no problema da água que não “viaja” até aos últimos andares de alguns edifícios da Vida Pacífica, no Calumbo, Icolo e Bengo, começa a parecer folha seca — algo repetido, desgastado, quase inútil. Mas o termo é mesmo esse: viajar. Porque, por aqui, a água não chega. Não cumpre o seu percurso básico.
O cenário é desconcertante. Batem-nos à porta cobradores de facturas de água… sem que haja água. Pagar o quê, afinal? A pergunta impõe-se com uma honestidade difícil de suavizar. E todos sabemos, no fundo, o que isso revela sobre o ponto em que chegámos.
O gráfico do desânimo cresce a cada dia. Há momentos em que abrimos a torneira e somos brindados com um breve e ilusório “xiiiiii”. Só isso. Um sopro, quase uma provocação. É o que muitos já chamam, com amarga ironia, de “água no fundo do túnel”.
Ainda assim, há quem segure a dignidade do cotidiano com esforço sobre-humano. As equipas de limpeza, depois de um dia inteiro de trabalho, sobem escadas, degrau após degrau, para ajudar moradores a encher recipientes que terão de durar dias. Um gesto que merece reconhecimento, mas que também expõe o nível de abandono.
A rotina transformou-se em sobrevivência. Subir com bacias “meia vazia”, equilibrar jarras, repetir o processo, guardar o pouco que resta para a sanita. Tudo é calculado, reaproveitado, improvisado. Se alguém já disse que uma mulher precisa de 20 litros de água para um banho digno, fica a pergunta: que tipo de exercício fazem as mulheres dos últimos andares, sobretudo na zona 2?
A comparação com outras centralidades surge inevitavelmente. Um conhecido, morador do Kilamba, não hesitou: apontou a má distribuição de água na Vida Pacífica, denunciou o lixo espalhado, os contentores saturados, o transbordo constante que transforma o ambiente num foco de mau cheiro. Segundo ele, a realidade lá é outra — há água em abundância, até nos últimos andares; falhas de energia são rapidamente resolvidas; atos de vandalismo recebem resposta imediata.
Se é verdade, então é também um exemplo claro de como deve funcionar: respeito pelos moradores, pelos contribuintes — sejam eles quem forem.
Importa reconhecer: houve mérito na recuperação da Vida Pacífica. Foi um trabalho que devolveu dignidade a muitas famílias, especialmente após o estado crítico em que se encontravam as zonas 1 e 2, outrora marcadas por vandalização extrema. Houve intervenção, houve melhoria, houve esperança.
Mas a pergunta permanece, incômoda e inevitável: e agora?
Vamos assistir, impávidos e serenos, à degradação progressiva deste espaço? Vamos permitir que a Vida Pacífica se transforme num verdadeiro aterro sanitário, numa centralidade sem água e com cada vez menos “vida pacífica”?
E não é só o lixo. Há também a poluição sonora: anúncios de gás nos “caleluias”, motorizadas e viaturas com escapamentos adulterados, ruídos agressivos que invadem o dia e a noite. Um ambiente onde o silêncio virou exceção e o incómodo, regra. Estrondos que, em exagero, só não superam os de cenários de guerra.
Diante disso, cabe refletir — e, sobretudo, agir. É urgente que se assumam responsabilidades. Que se cuide do básico. Que se respeite quem aqui vive.
Se noutras centralidades é possível garantir condições dignas, por que aqui não?
Se não tudo, então ao menos o essencial.
Pelo menos o lixo.
Por Gil Caconda