
O congresso da UNITA, que deveria ser um momento de afirmação democrática e renovação interna, foi marcado por denúncias de militantes, simpatizantes e até amigos do partido sobre alegadas ofertas de dinheiro a delegados — um fenómeno que levanta dúvidas profundas sobre a qualidade da democracia interna e o futuro ético do maior partido da oposição angolana.
Em teoria, congressos partidários são o coração pulsante da vida democrática: espaços de debate, confronto de ideias e escolha livre de lideranças. Na prática, porém, a mais recente reunião magna da UNITA mostrou sinais preocupantes de contaminação por práticas que minam a transparência e a confiança — não apenas dentro do partido, mas no próprio ambiente político angolano.
As denúncias de alegadas ofertas de dinheiro a delegados não podem ser vistas como simples ruído de bastidores. Quando militantes e simpatizantes, muitos deles tradicionalmente leais, levantam a voz, o que está em causa é mais do que um processo eleitoral interno: é a integridade moral de uma organização que se apresenta como alternativa democrática ao poder instituído.
A pergunta impõe-se: estas práticas ajudam, de alguma forma, a democracia interna?
A resposta, inevitavelmente, é não.
A compra de apoios — mesmo que apenas insinuada — transforma a lógica participativa numa lógica de mercado político. O delegado deixa de ser porta-voz da base para ser potencial beneficiário de interesses particulares. O voto, que deveria ser expressão de consciência, torna-se moeda. E, num partido que sempre se posicionou como força moral contra os vícios do sistema, essa incoerência pesa mais do que noutros.
É verdade que nenhum grande partido está totalmente imune a tentativas de manipulação interna. A política, especialmente quando disputada intensamente, atrai oportunismos. Mas a diferença está na capacidade de cada organização para reagir, investigar e corrigir. O silêncio, a relativização ou o desdém perante denúncias significativas não apenas amplificam a suspeita, como fragilizam a legitimidade da liderança escolhida e a coesão partidária.
Se a UNITA pretende manter o discurso de moralidade política e apresentar-se como exemplo de alternativa, precisa fazer mais do que discursos inflamados sobre democracia: precisa demonstrá-la na prática. Isso implica processos transparentes, investigação independente, responsabilização de eventuais infractores e criação de mecanismos que impeçam a repetição desses episódios.
No fim, o que está em jogo não é apenas quem vence o congresso — é o valor do próprio voto.
E sem voto livre, consciente e desinteressado, nenhum partido, por mais histórico que seja, poderá garantir a credibilidade necessária para disputar o futuro do país.
O congresso deveria ter sido uma celebração. As denúncias transformaram-no num alerta.
Resta saber se a UNITA o ouvirá.
Jornalista Siona Júnior