
Li, hoje, um texto do jornalista angolano Siona Júnior, publicado no seu Facebook. Não o li com pressa, nem como quem desliza o dedo sobre o ecrã à procura de distracção. Li-o devagar, como se lê aquilo que nos toca porque nos espelha. Reconheci-me nas suas palavras. E quando um texto nos reconhece, já não é apenas do autor: passa a ser nosso também. Por isso escrevo esta crónica — não para repetir, mas para reforçar a reflexão.
Siona Júnior lembra-nos de algo tão simples quanto esquecido: valorizemos as pessoas enquanto estão vivas. Familiares, amigos, colegas, vizinhos. Aqueles que partilham connosco o pão, a rua, o trabalho, o silêncio e até os conflitos. Porque depois… depois é tarde demais. O elogio póstumo não aquece, o pedido de perdão no funeral não cura, e as flores no caixão não substituem o abraço em vida.
Vivemos como se fôssemos permanentes, quando somos apenas passageiros apressados. Brigamos por cargos, títulos, vaidades, como se o mundo fosse um campeonato eterno. Esquecemo-nos de que o tempo não negocia, não avisa duas vezes, não espera que resolvamos as nossas mágoas. Ele passa. Simplesmente passa.
Há uma verdade dura, mas profundamente democrática: no cemitério, todos somos iguais. Ali não há doutor, general, director, influencer ou anónimo. Não há marca de carro, nem saldo bancário, nem currículo. A terra não reconhece vaidade. O mármore não lê cartões de visita. O cemitério é, afinal, o maior filósofo silencioso da humanidade: ensina-nos que tudo o que não foi amor, foi excesso.
Quantas pessoas só se tornam “boas” depois de morrer? Quantos elogios só aparecem quando já não podem ser ouvidos? É uma ironia cruel da nossa cultura: poupamos afecto em vida e gastamos tudo na despedida. Choramos no funeral quem nunca soubemos escutar na sala de estar.
Talvez a verdadeira espiritualidade não esteja em discursos grandiosos, mas em gestos pequenos: um telefonema, um pedido de desculpas, um “estou contigo”, um “obrigado por existires”. Porque, no fim, ninguém levará nada — excepto a memória que deixou nos outros.
O texto de Siona Júnior lembra-nos, com sobriedade, que estamos todos de passagem. E que, se é assim, faz mais sentido andar leve, amar mais, perdoar cedo, valorizar agora. O resto é vaidade — e a vaidade, como a história já provou, termina sempre no mesmo lugar.
Na terra. Em silêncio. Sem aplausos.
Por: André Kivuandinga, jornalista e Cronista