Quinta-feira, Dezembro 18, 2025

O OUTRO LADO DO ESPELHO

Há dias li, nas redes sociais, uma carta escrita por alguém que se identificava como residente no Moxico.

Por: apostolado
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Na minha última crónica, publicada neste mesmo espaço, falei da fuga à paternidade — esse desporto nacional praticado com farda, capacete ou capacete de engenheiro. Apontei números, responsabilidades e a velha arte masculina de desaparecer quando a criança chega. Prometi, porém, regressar ao assunto pelo outro lado do espelho. Palavra dada, palavra cumprida.

 

Há dias li, nas redes sociais, uma carta escrita por alguém que se identificava como residente no Moxico. Não guardei o texto, nem o nome do autor, mas guardei a inquietação. Na carta, ele pedia uma revisão da forma como os tribunais e os operadores de justiça têm julgado os casos de suposta fuga à paternidade, sobretudo no quesito da assistência alimentícia. Segundo ele, a balança da justiça inclina-se quase sempre para o mesmo lado: o das mulheres. O salário do homem é cortado com a rapidez de quem puxa uma faca afiada, sem que se analisem outras variáveis da sua vida — dívidas, outros filhos, doença, desemprego parcial, ou simplesmente a matemática básica de um ordenado que não estica.

 

A carta não negava a responsabilidade paterna. Questionava, isso sim, o método. E quando o método falha, a justiça corre o risco de se transformar numa contabilidade automática: nasceu criança, corta-se salário; existe pai presumido, executa-se. Sem alma, sem contexto, sem filosofia.

 

Também já ouvi — e aqui entro num terreno escorregadio, mas real — histórias de mulheres que constroem relações em série até à gravidez, e depois optam pela separação, vivendo exclusivamente da assistência alimentícia. O caso torna-se mais grave quando o enredo se repete com vários homens. Três, quatro, cinco filhos, cada um com o seu pai, todos a pagar. No fim das contas, diz-se nos becos e nas conversas sussurradas, o orçamento mensal supera o salário de muitos trabalhadores honestos que acordam às cinco da manhã para ganhar quase nada.

 

Não escrevo isto para acusar mulheres, nem para absolver homens. A realidade, como quase tudo na vida, não cabe em slogans. Há mulheres abandonadas, humilhadas, deixadas com filhos e promessas vazias. Há homens irresponsáveis, sim, especialistas em sumiço. Mas também há homens esmagados por decisões judiciais que não escutam a complexidade da vida. E há mulheres que transformam a maternidade num projecto financeiro.

 

A filosofia ensina-nos que a justiça não é apenas aplicação da lei, mas busca do justo. E o justo raramente é automático. Exige escuta, análise, contexto. Exige perguntar: quanto ganha este homem? Quantos filhos tem? Vive como? E esta mulher: trabalha? O pai participa afectivamente? Há partilha real de responsabilidades ou apenas transferência de dinheiro?

 

Talvez esteja na hora de repensarmos leis e práticas, não para enfraquecer a protecção da criança — que deve ser sagrada — mas para torná-la mais inteligente e humana. A criança não precisa apenas de dinheiro; precisa de equilíbrio, presença, verdade.

 

No fim, esta história não é de homens contra mulheres, nem de tribunais contra cidadãos. É de uma sociedade que ainda aprende a lidar com a paternidade, a maternidade e a responsabilidade sem cair no automatismo nem na hipocrisia.

 

Porque quando a justiça deixa de ouvir, ela pode até cumprir a lei, mas falha naquilo que mais importa: ser justa.

 

Por: André Kivuandinga, jornalista e Cronista

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