
“Bom dia, senhor bispo.”
Era assim que começavam os nossos encontros quase diários nos corredores da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), entre a porta da capela e os primeiros afazeres da manhã. Eu saudava-o com respeito e amizade. Ele, com o seu sorriso sereno e olhar acolhedor, respondia sempre da mesma forma:
— Como estais?
— Estou bem, meu bispo — respondia eu.
Hoje, essas palavras ecoam na minha memória com uma força especial. São lembranças que regressam com emoção diante da partida física de Dom Zacarias Kamwenho, um homem cuja vida se confundiu com a luta pela paz, pela justiça e pela dignidade humana em Angola.
Conheci Dom Zacarias em 2001, durante os fóruns sobre o calar das armas, numa época em que o país ainda procurava caminhos para o fim definitivo da guerra. Tratava-se de uma iniciativa que reunia diversas organizações da sociedade civil, entre elas a Angola 2000, a Rede Mulher Angola — da qual eu fazia parte —, a AJUSA, a AMCNK, o NDI, a World Learning e outras instituições que o tempo acabou por apagar da memória.
Naqueles encontros, realizados em diferentes espaços de reflexão e mobilização social, Dom Zacarias destacava-se pela clareza das suas intervenções. As suas palavras eram firmes, mas sempre orientadas para a reconciliação nacional. Falava de paz não como um simples acordo político, mas como um compromisso permanente entre os angolanos. Defendia o diálogo, o perdão e a reconstrução moral da sociedade.
Com o apoio da Comissão de Justiça e Paz da Paróquia de Santo André, participei em várias actividades ligadas à promoção da paz, e em muitas delas encontrei novamente Dom Zacarias. A sua presença inspirava confiança e transmitia esperança num futuro melhor para o país.
Anos mais tarde, em 2018, tive oportunidade de testemunhar mais uma vez a sua dimensão humana. Naquela altura, a empresária e pastora Celeste de Brito encontrava-se detida no âmbito do conhecido caso da chamada “Burla Tailandesa”. Durante as visitas que lhe fazia regularmente na Cadeia de Viana, ela pediu-me que transmitisse a Dom Zacarias o desejo de falar com ele pessoalmente.
Quando o contactei, ouvi uma resposta que demonstrava toda a sua sensibilidade perante o sofrimento alheio:
— A minha filha está detida inocentemente. Este sistema não sabe o que está a fazer.
Poucos dias depois, numa quarta-feira pela manhã, seguimos juntos para a Cadeia de Viana. O acesso não foi simples. Entre verificações e procedimentos, a entrada parecia cada vez mais difícil. Até que um agente prisional se aproximou e perguntou aos colegas:
— Sabem quem é este senhor?
Alguns responderam:
— É um padre da Igreja Católica.
Mas o agente corrigiu imediatamente:
— Este é Dom Zacarias Kamwenho, o único angolano distinguido com o Prémio Sakharov. Deixem-no entrar.
Entrámos.
Durante a visita, observei atentamente o encontro entre Dom Zacarias e Celeste de Brito. Não era apenas uma conversa entre um bispo e uma detida. Havia ali a cumplicidade de um pai espiritual preocupado com o sofrimento de uma filha. Ele ouviu cada palavra com atenção, sem pressa, sem julgamentos. No final, concedeu-lhe a bênção e pronunciou palavras de esperança:
— Vais sair daqui brevemente.
A partir daí, sempre que nos encontrávamos, depois do habitual “Bom dia”, havia uma pergunta que nunca faltava:
— A minha filha Celeste de Brito está bem de saúde?
E eu respondia:
— Está sim, senhor bispo.
Era a demonstração de uma memória afectiva rara. Dom Zacarias não esquecia as pessoas. Guardava-as no coração e acompanhava as suas vidas com genuína preocupação.
Também nunca esquecerei o telefonema que recebi após o falecimento do meu mestre e xará, Siona Casimiro. Numa fase de profunda dor, ouvi a sua voz do outro lado da linha:
— Tens de preservar o legado do teu xará. Ficas com um nome muito forte do jornalismo puro, da honestidade, do respeito e dos valores.
Foram palavras de encorajamento que permaneceram comigo até hoje.
Recordo igualmente um episódio ocorrido na CEAST, quando uma ambulância foi chamada devido ao agravamento do estado de saúde de uma pessoa presente nas instalações. Apesar da preocupação geral, Dom Zacarias caminhava com a serenidade habitual, demonstrando a tranquilidade que sempre o caracterizou. Ainda naquele contexto, recebeu o meu cumprimento de sempre:
— Bom dia, senhor bispo.
E respondeu:
— Como estais?
A simplicidade daquele diálogo tornou-se, com o passar do tempo, um símbolo da sua forma de estar na vida: próximo, humilde e profundamente humano.
Dom Zacarias ensinou-me muito. Ensinou através das homilias, das conferências, dos gestos e das conversas breves nos corredores. Ensinou pelo exemplo de vida. Ensinou que a autoridade só faz sentido quando colocada ao serviço dos outros.
Lembro-me da sua última homilia transmitida pela Rádio Ecclesia a partir da Capela da CEAST. Ouvi-a com atenção e emoção. Tenho a certeza de que parte dessas reflexões encontrará lugar no livro que pretendo lançar em dezembro.
Hoje, enquanto escrevo estas linhas, volto mentalmente àquele corredor da CEAST. Vejo-o caminhar serenamente. Ouço novamente a saudação que marcou tantos encontros.
— Bom dia, senhor bispo.
E quase consigo ouvir a sua voz responder pela última vez:
— Como estais?
Partiu o bispo. Permanece o homem, o pastor e o construtor da paz. Permanece o exemplo. Permanece a memória.
E essa, felizmente, ninguém nos poderá tirar.
Jornalista Siona Júnior