
O Papa Francisco publicou, em 2015, a encíclica social Laudato Si’, dedicada ao cuidado da Casa Comum. Trata-se, de forma amplamente reconhecida, de um documento profundamente inspirador, que apela à urgência de um novo olhar sobre o mundo criado e à responsabilidade pela integridade da criação. Esta encontra-se hoje ameaçada por múltiplos atentados contra a ecologia integral, que exige, simultaneamente, o cuidado dos pobres e a proteção da natureza.
Na audiência do passado domingo, o Papa Leão recordou: “De hoje até ao próximo domingo decorre a Semana Laudato Si’, dedicada ao cuidado da criação e inspirada na encíclica do Papa Francisco. Neste ano jubilar de São Francisco de Assis, recordamos a sua mensagem de paz com Deus, com os irmãos e com todas as criaturas. Infelizmente, nos últimos anos, devido às guerras, os progressos neste campo abrandaram significativamente. Por isso, encorajo os membros do Movimento Laudato Si’ e todos os que trabalham por uma ecologia integral a renovarem o seu empenho. Cuidar da paz é cuidar da vida!”
Recebi esta semana uma mensagem muito significativa vinda do Quénia, na fronteira com a Somália. Trata-se de uma região marcada pelo deserto ou quase deserto, onde as culturas agrícolas dificilmente vingam e as árvores de fruto não sobrevivem. Ainda assim, persiste o esforço de contrariar esta realidade agreste, apostando em soluções simples, como a plantação de arbustos capazes de trazer algum verde à paisagem, atrair gradualmente as chuvas e melhorar as condições de vida de populações muito pobres.

Há cerca de um ano, o padre angolano José Martins Mandele chegou à missão de Wenje, nestes confins do Quénia. Com ousadia e sentido prático, decidiu plantar 200 árvores no terreno que envolve a residência paroquial onde vive. Explica que o projeto “Wenje Verde” é uma iniciativa ambiental e ecológica essencial para combater as alterações climáticas, restaurar paisagens degradadas e melhorar os meios de subsistência da comunidade paroquial.
Wenje situa-se no condado de Tana River, na fronteira com a Somália. É uma região de clima quente e seco, o que torna esta iniciativa particularmente importante para criar sombra, promover a conservação ambiental e reforçar o bem-estar da comunidade. Entre os principais objetivos da plantação destas árvores estão o combate às alterações climáticas e à seca, fenómenos frequentes naquela zona, onde as chuvas são escassas e irregulares.
Foram já plantadas 205 árvores no quintal paroquial, que servirá também para celebrações e encontros comunitários. Este projeto pretende ainda reabilitar ecossistemas degradados e proteger o solo contra riscos ambientais como a erosão, a sedimentação e os problemas na gestão da água. Se estas árvores conseguirem sobreviver — o que representa um grande desafio —, poderão inspirar os habitantes locais a reproduzir a iniciativa nos seus próprios quintais.
Como sublinha o padre Mandele, “não basta alimentar o espírito com a Palavra de Deus, cuidar do corpo com a medicina e educar a mente com a educação; é igualmente necessário ensinar os fiéis a cuidar da Mãe Natureza através do projeto Wenje Verde”.
O missionário espiritano descreve ainda a realidade cultural da região: Wenje é um espaço de grande diversidade, habitado por comunidades Pokomo, Orma, Wardey e também por somalis vindos da vizinha Somália. Esta diversidade, associada à pobreza estrutural, contribui para conflitos frequentes e situações de insegurança, muitas vezes motivadas pela disputa de recursos essenciais como pastagens e água, agravadas pela seca persistente.
O projeto aponta também para desafios futuros, nomeadamente a manutenção das plantas através da irrigação. Ainda assim, esta ação transforma o espaço paroquial num lugar de “sombra, ar puro e um amanhã melhor”, promovendo simultaneamente o cuidado com a criação.
Nesta Semana Laudato Si’, este testemunho interpela-nos profundamente. Em muitos lugares do mundo, multiplicam-se sinais de urgência que pedem atenção, responsabilidade e ação concreta, para que seja possível proteger os pobres e tornar habitável a nossa Casa Comum.
Tony Neves, em Roma