
Apesar de décadas de investimentos anunciados no sector energético, cerca de metade da população angolana continua sem acesso à electricidade. Ao mesmo tempo, o país enfrenta dificuldades na gestão das cerca de 19 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos produzidas diariamente.
Cinquenta anos depois da independência, cerca de metade dos angolanos continua sem acesso à electricidade. O dado foi admitido esta semana pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, que apontou a electrificação do território como uma das principais prioridades do Governo.
Em entrevista à Televisão Pública de Angola (TPA), o governante reconheceu que “temos metade dos angolanos sem acesso” à energia eléctrica e garantiu que os investimentos públicos continuam direccionados para responder a esse défice.
“O nosso esforço, a nossa actividade e o investimento público são dirigidos para a electrificação do nosso país, para atender às necessidades das nossas populações”, afirmou João Baptista Borges.
O ministro sustentou, contudo, que Angola dispõe actualmente de um excedente de capacidade de produção eléctrica que deve ser aproveitado para gerar novas oportunidades económicas.
Segundo Borges, o país poderá transformar esse excedente numa vantagem através da exportação de energia para os mercados regionais. Entre os projectos em perspectiva estão interligações eléctricas com a Namíbia, a Zâmbia e a República Democrática do Congo (RDC).
A estratégia prevê uma participação significativa do sector privado, nomeadamente na construção e operação das linhas de transporte de energia.
O governante advertiu, porém, que a actual situação de excedente poderá mudar no futuro. As interligações regionais, explicou, poderão funcionar nos dois sentidos: Angola poderá hoje exportar electricidade e, amanhã, caso enfrente um défice, importar energia dos países vizinhos.
MERCADO REGIONAL DE ENERGIA
João Baptista Borges defendeu que estas interligações poderão contribuir para a criação de um mercado energético regional, ligando os sistemas da África Central e da África Austral.
“Essas ‘pools’ energéticas vão então funcionar com base nessa exportação e importação de energia”, explicou.
O cenário coloca, entretanto, um contraste entre a capacidade de produção instalada e o acesso efectivo da população ao serviço. Enquanto o Governo projecta exportar electricidade para os países vizinhos, milhões de angolanos continuam sem ligação à rede eléctrica.
19 MIL TONELADAS DE LIXO POR DIA
O défice de serviços básicos não se limita ao acesso à electricidade. Na área ambiental e do saneamento, Angola enfrenta igualmente um desafio de grandes proporções.
O secretário de Estado para o Ambiente, Lury Santos, revelou que o país produz cerca de 19 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia, enquanto a taxa de reciclagem continua baixa.
Os resíduos são constituídos, em grande parte, por matéria orgânica, que representa cerca de 39%, e por plásticos, responsáveis por aproximadamente 24% do total.
Durante o lançamento do eixo 3 do Fórum Nacional de Água e Saneamento (FONAS), subordinado ao lema “Saneamento como Prioridade Estratégica Sectorial”, o governante apontou ainda a existência de lixeiras a céu aberto, a insuficiência de infra-estruturas para deposição final dos resíduos e a defecação ao ar livre como problemas que persistem no país.
Para Lury Santos, esta realidade exige uma resposta coordenada, com maior determinação política e a implementação de medidas estruturantes.
Entre as medidas anunciadas está a proibição gradual, a partir do final deste mês, da produção, importação, comercialização e utilização de determinados produtos plásticos de uso único, incluindo sacos plásticos leves, palhinhas, cotonetes e agitadores de bebidas.
De acordo com o secretário de Estado, a medida pretende reduzir a poluição plástica na fonte e incentivar a utilização de alternativas biodegradáveis, promovendo simultaneamente um modelo de consumo mais circular.
COMBATE À DEFECAÇÃO AO AR LIVRE
No domínio do saneamento, o Governo afirma estar também a desenvolver acções destinadas a combater a defecação ao ar livre, sobretudo nas zonas de maior dispersão populacional.
As iniciativas incluem o envolvimento de cidadãos e estudantes na mudança de comportamentos e na construção de infra-estruturas sanitárias sustentáveis, utilizando materiais disponíveis localmente.
A aposta, segundo Lury Santos, passa igualmente pela prevenção de doenças de origem hídrica através da melhoria das condições sanitárias.
O governante destacou ainda a cooperação técnica e operacional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o contributo de instituições públicas e privadas.
Louise Daniels, chefe da secção de Políticas Sociais do UNICEF, considerou que Angola tem registado progressos no domínio do saneamento básico, tendo como referência os dados oficiais.
ENTRE O EXCEDENTE E A CARÊNCIA
Os dados apresentados pelos próprios responsáveis governamentais expõem dois desafios distintos, mas ligados à prestação de serviços essenciais.
De um lado, Angola afirma possuir capacidade excedentária de produção eléctrica e prepara projectos para exportar energia. Do outro, cerca de metade da população permanece sem acesso à electricidade.
No sector dos resíduos, o país produz diariamente milhares de toneladas de lixo e continua a enfrentar limitações na reciclagem, na deposição final e no saneamento.
A questão central permanece, assim, na capacidade de transformar investimentos, produção e projectos anunciados em serviços básicos efectivamente acessíveis à maioria da população.
Fonte: FOLHA 8