
A Lunda Norte, conhecida mundialmente pelas suas riquezas minerais, sobretudo o diamante, volta a ser palco de uma contradição profunda: enquanto o subsolo brilha, a superfície padece. Nas escolas públicas, aquilo que deveria ser um direito básico — a merenda escolar — chega às crianças de forma indignamente reduzida: sem água potável e substituída, muitas vezes, por refrigerantes baratos.
Como aceitar que numa província cuja produção contribui decisivamente para a economia nacional, os alunos continuem a frequentar aulas com barrigas vazias, consumindo bebidas gasosas em vez de água, e sem qualquer supervisão nutricional? Este cenário expõe uma falha estrutural na gestão dos recursos e revela um país onde a abundância convive com a carência, quase sem constrangimentos morais.
A merenda escolar não é um luxo. É uma política pública essencial para garantir rendimento escolar, saúde e dignidade. Especialmente numa região onde muitas famílias vivem em condições socioeconómicas frágeis, a merenda torna-se, para muitas crianças, a principal refeição do dia. Quando essa refeição é desvalorizada, improvisada ou tratada como favor, perde-se não apenas o alimento, mas a oportunidade de construir um futuro mais justo.

Permitir que a merenda escolar seja substituída por refrigerantes — produtos ricos em açúcar e pobres em nutrientes — é fechar os olhos a riscos de saúde e ignorar padrões básicos definidos pelo próprio Estado. Mais grave ainda é a ausência de água potável, que deixa os alunos vulneráveis à desidratação e a doenças, num cenário onde o calor e a distância percorrida até à escola já são, por si, desafios diários.

É urgente que as autoridades, tanto locais como nacionais, assumam responsabilidades claras e fiscalizem a execução dos programas de alimentação escolar. A Lunda Norte possui riqueza suficiente para que nenhuma criança estude com fome — a questão nunca foi a falta de meios, mas sim a falta de gestão, transparência e prioridade.
A província do diamante merece muito mais do que brilho aparente. E as suas crianças merecem, no mínimo, água limpa e comida de verdade. O resto é abandono disfarçado de normalidade.
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