Quinta-feira, Dezembro 18, 2025

QUANDO É QUE VAMOS DEIXAR DE TRATAR AS CRIANÇAS COMO ESTATÍSTICA E COMEÇAR A TRATÁ-LAS COMO PRIORIDADE MORAL?

Quatrocentas e sessenta e três infâncias quebradas.

Por: apostolado
0 comentário

Há estatísticas que não deviam existir. Números que, quando pronunciados, não informam, acusam. O Instituto Nacional da Criança diz que, entre janeiro e outubro, 463 menores foram vítimas de abuso sexual em Angola. Quatrocentas e sessenta e três infâncias quebradas. Quatrocentos e sessenta e três futuros feridos antes mesmo de aprenderem a escrever a palavra “futuro”.

E nós? O que fazemos com estes números? Olhamos para eles como quem olha para a meteorologia, “vai chover hoje, 463 amanhã”, ou percebemos que eles são o espelho rachado da sociedade?

Os números, quando mexem naquilo que é sagrado, deixam de ser dados; tornam-se acusadores morais. Cada dígito ergue o dedo e pergunta: “Onde estavas quando isto aconteceu?”

O mais inquietante é a lista de quem destruiu essas vidas. Entre os ngombiris surgem 65 professores, que esqueceram que ensinar é proteger. 56 taxistas, que deviam transportar pessoas, não medos. 45 pedreiros, que levantam paredes mas derrubaram confiança. 42 engenheiros, capazes de erguer pontes, mas incapazes de controlar o próprio abismo. Sete camponeses, quatro polícias, um militar, e mais 243 indivíduos de outras profissões que, juntos, revelam uma verdade desconfortável:

o mal não veste uniforme fixo; esconde-se nas dobras do quotidiano.

Quando o predador deixa de ser uma figura distante e passa a ter rosto de vizinho, colega, motorista, professor, parente… então descobrimos que o verdadeiro perigo nunca esteve “lá fora”. Ele sempre andou entre nós, alimentado pelo silêncio cúmplice e pelas estruturas sociais que preferem preservar reputações a proteger crianças.

Em filosofia, diz-se que o mal triunfa quando se banaliza.

Talvez estejamos a viver exactamente isso: a banalização do intolerável.

Lemos o número 463 e seguimos o dia.

Ouvimos falar dos Artigos 193.º e 194.º do Código Penal, e pensamos que o castigo basta — como se justiça fosse sinónimo de cura.

Esquecemo-nos de que cada uma dessas crianças vai carregar uma cicatriz que não cabe em diploma algum.

Há também um outro julgamento em curso.

Um julgamento silencioso.

Não é o tribunal que julga os adultos; são as próprias crianças que, no futuro, julgarão o tipo de sociedade que as permitiu cair.

Seremos lembrados como a geração que fingiu não ver?

Ou como a que finalmente ergueu a voz?

A filosofia ensina que a protecção da criança não é apenas um dever jurídico, mas um imperativo moral — desses que não se discute, cumpre-se.

E, no entanto, continuamos a tratar o abuso sexual como um relâmpago: aparece, assusta, ilumina por um segundo… e depois desaparece da conversa pública.

Mas 463 raios num único ano não são tempestade.

São aviso.

 

E aviso sério.

 

A pergunta que fica é:

Quando é que vamos deixar de tratar as crianças como estatística e começar a tratá-las como prioridade moral?

Até lá, cada novo número registado pelo INAC não será apenas um caso; será um fracasso colectivo.

E, pior ainda, será mais uma criança a perguntar — no silêncio que dói — onde estavam os adultos no dia em que ela mais precisou.

Talvez a resposta seja esta crónica.

Talvez ainda não seja.

 

Por: André Kivuandinga, jornalista e Cronista

You may also like

2023 –  Direitos Reservados. Jornal o Apostolado.  Developed by TIIBS, Lda – TIIBS, Lda – Technology Consultants

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está bem com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceitar Ler Mais

Política de Privacidade & Cookies