
Há estatísticas que não deviam existir. Números que, quando pronunciados, não informam, acusam. O Instituto Nacional da Criança diz que, entre janeiro e outubro, 463 menores foram vítimas de abuso sexual em Angola. Quatrocentas e sessenta e três infâncias quebradas. Quatrocentos e sessenta e três futuros feridos antes mesmo de aprenderem a escrever a palavra “futuro”.
E nós? O que fazemos com estes números? Olhamos para eles como quem olha para a meteorologia, “vai chover hoje, 463 amanhã”, ou percebemos que eles são o espelho rachado da sociedade?
Os números, quando mexem naquilo que é sagrado, deixam de ser dados; tornam-se acusadores morais. Cada dígito ergue o dedo e pergunta: “Onde estavas quando isto aconteceu?”
O mais inquietante é a lista de quem destruiu essas vidas. Entre os ngombiris surgem 65 professores, que esqueceram que ensinar é proteger. 56 taxistas, que deviam transportar pessoas, não medos. 45 pedreiros, que levantam paredes mas derrubaram confiança. 42 engenheiros, capazes de erguer pontes, mas incapazes de controlar o próprio abismo. Sete camponeses, quatro polícias, um militar, e mais 243 indivíduos de outras profissões que, juntos, revelam uma verdade desconfortável:
o mal não veste uniforme fixo; esconde-se nas dobras do quotidiano.
Quando o predador deixa de ser uma figura distante e passa a ter rosto de vizinho, colega, motorista, professor, parente… então descobrimos que o verdadeiro perigo nunca esteve “lá fora”. Ele sempre andou entre nós, alimentado pelo silêncio cúmplice e pelas estruturas sociais que preferem preservar reputações a proteger crianças.
Em filosofia, diz-se que o mal triunfa quando se banaliza.
Talvez estejamos a viver exactamente isso: a banalização do intolerável.
Lemos o número 463 e seguimos o dia.
Ouvimos falar dos Artigos 193.º e 194.º do Código Penal, e pensamos que o castigo basta — como se justiça fosse sinónimo de cura.
Esquecemo-nos de que cada uma dessas crianças vai carregar uma cicatriz que não cabe em diploma algum.
Há também um outro julgamento em curso.
Um julgamento silencioso.
Não é o tribunal que julga os adultos; são as próprias crianças que, no futuro, julgarão o tipo de sociedade que as permitiu cair.
Seremos lembrados como a geração que fingiu não ver?
Ou como a que finalmente ergueu a voz?
A filosofia ensina que a protecção da criança não é apenas um dever jurídico, mas um imperativo moral — desses que não se discute, cumpre-se.
E, no entanto, continuamos a tratar o abuso sexual como um relâmpago: aparece, assusta, ilumina por um segundo… e depois desaparece da conversa pública.
Mas 463 raios num único ano não são tempestade.
São aviso.
E aviso sério.
A pergunta que fica é:
Quando é que vamos deixar de tratar as crianças como estatística e começar a tratá-las como prioridade moral?
Até lá, cada novo número registado pelo INAC não será apenas um caso; será um fracasso colectivo.
E, pior ainda, será mais uma criança a perguntar — no silêncio que dói — onde estavam os adultos no dia em que ela mais precisou.
Talvez a resposta seja esta crónica.
Talvez ainda não seja.
Por: André Kivuandinga, jornalista e Cronista