Quinta-feira, Dezembro 18, 2025

O DIA EM QUE OS KUPAPATAS DISSERAM: BASTA!

Se a legalidade existe, mas ninguém a verifica, ela existe ou não existe?

Por: apostolado
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Há dias, entre a Centralidade do Sequele e o bairro Mayé-Mayé, o ar parecia pesado. Não era neblina, não era poeira da estrada, não era o cheiro a gasolina com água que algumas bombas vendem. Era cansaço moral,  aquele tipo de cansaço que pesa mais que mota sem travões.

Os kupapatas, esses filósofos de capacete, conhecidos por levarem gente, galinhas, móveis e até sonhos amarrados, fizeram finalmente algo histórico: reuniram-se com a Polícia Nacional para reclamar do… saque. Não o saque bíblico, do tempo dos filisteus; mas o saque moderno, actualizado, com tabela de preços flexível. Variável entre 100 e 2.500 kwanzas, conforme a disposição do agente ou a “cara do cliente”.

E aqui começa a parte filosófica:

Se a legalidade existe, mas ninguém a verifica, ela existe ou não existe?

Platão teria escrito outro livro sobre isso. Os kupapatas apenas suspiraram:

— “Documentos? Eles nem querem ver! O que querem é o kumbu!”

Segundo o “Factos Diários”, os agentes que deveriam zelar pela ordem, preferem zelar pelo bolso. Não aceitam ver documentos porque documento não lubrifica bolso. O que lubrifica é a nota de 100 amarfanhada, passada discretamente como quem passa segredo de família em velório.

Mas desta vez os kupapatas disseram CHEGA!

Reuniram-se com a direcção da esquadra. Imaginem só: motoqueiros, muitas vezes vistos como desordeiros, a fazerem aquilo que em Angola já deveria ser património imaterial — diálogo institucional. Um gesto de louvar, realçar e até emoldurar.

A reunião foi assim (imaginação minha, mas podia ter sido real):

— “Senhor comandante, estamos cansados!”

— “Cansados de quê?”

— “Do saque, chefe. Gasosa sem recibo, sem factura, sem nada. Nem POS têm!”

— “Mas vocês têm documentos?”— pergunta o Comandante.

— “Temos! Mas não servem pra nada, chefe. Eles nem olham!”

— “Hmm… isso é grave.”

— Grave é pouco, comandante! — gritou outro. — Até insultos recebemos. Ameaças também, como se fossemos marginais. Nós só somos pobres, não somos criminosos.

E nesse instante a filosofia bateu forte na sala:

Quando o pobre começa a reclamar, é porque a injustiça ficou mais pesada que o peito da motorizada quando leva saco de carvão.

O mais irônico é que os kupapatas não pediram ouro, não pediram salário, não pediram combustível sem água. Pediram apenas que “a legalidade valha alguma coisa”.

Pequena exigência, grande esperança.

Se esta denúncia for verdadeira — e em Angola a verdade às vezes anda de motorizada sem capacete — é de se preocupar. Hoje é gasosa de 100 kwanzas; amanhã podem ser 5.000; depois 10.000; até chegar o dia em que o agente já não pede dinheiro, pede a própria motorizada, alegando que “parece suspeita”.

Termino o texto com uma reflexão:

Uma sociedade só fica doente quando a normalidade se torna anormal e a anormalidade vira rotina.

Se os kupapatas, que são o termómetro da rua, já estão a ferver, é preciso que alguém abra as janelas antes que a panela exploda.

Por isso, que os responsáveis tomem mesmo a peito a situação.

Porque quando até o kupapata decide filosofar, é sinal de que a estrada não está só esburacada no asfalto — está esburacada também na moral.

 

Por: André Kivuandinga, jornalista e Cronista

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