
Após a proclamação da Independência, em 1975, Angola enfrentou décadas de instabilidade política, guerra civil e profundas crises sociais. Nesse cenário desafiante, os catequistas assumiram um papel que ultrapassou em muito o simples exercício religioso. Tornaram-se figuras essenciais na reconstrução moral e cultural do país, contribuindo para a evangelização, a educação comunitária e a sensibilização cívica de milhares de angolanos.
Em muitas aldeias e municípios, onde o Estado demorou a chegar com escolas, serviços de saúde e estruturas administrativas, os catequistas foram, muitas vezes, os únicos agentes de organização comunitária. Através das suas formações, círculos bíblicos e encontros pastorais, promoveram valores de solidariedade, respeito, justiça e paz — princípios indispensáveis para a coesão social num país marcado por divisões profundas. O trabalho de evangelização não se limitou à transmissão da fé cristã: representou também a construção de um quadro ético capaz de orientar comportamentos, resolver conflitos e fortalecer o sentido de pertença.
O contributo educativo dos catequistas revelou-se igualmente determinante. Muitos assumiram a função de alfabetizadores, mediadores culturais e formadores de jovens, sobretudo em zonas rurais. Era nas suas mãos que crianças e adultos encontravam as primeiras noções de leitura, escrita e cidadania. Numa Angola onde a escolarização era limitada, o catequista transformava o salão paroquial ou a sombra de uma árvore num espaço de aprendizagem. Ao ensinar, ele preparava cidadãos mais conscientes, capazes de interpretar a realidade e de aspirar a um futuro melhor.
Outra dimensão frequentemente esquecida é a capacidade dos catequistas de sensibilizar comunidades inteiras para questões sociais e culturais. A partir da sua autoridade moral, chamaram atenção para a importância da convivência pacífica, da preservação dos valores tradicionais, da defesa da dignidade humana e da responsabilidade coletiva. Foram, em muitos casos, os primeiros a promover campanhas locais contra a violência doméstica, o consumo abusivo de álcool, a marginalização dos mais vulneráveis e a perda de práticas culturais positivas. A sua palavra, próxima e acessível, conseguiu chegar onde discursos políticos raramente alcançavam.
Hoje, quando Angola procura consolidar a paz, reforçar as instituições e promover um desenvolvimento verdadeiramente humano, é urgente reconhecer o valor histórico dos catequistas. Eles foram protagonistas silenciosos na formação moral do país e continuam a ser peças-chave na construção de uma sociedade assente em princípios éticos, culturais e espirituais. Ignorar a sua contribuição é ignorar parte da força que manteve vivas muitas comunidades ao longo de décadas difíceis.
Mais do que agentes de fé, os catequistas são guardiões de valores e educadores populares. O seu legado ultrapassa a Igreja e inscreve-se na própria identidade angolana. E é precisamente por isso que, num tempo de novos desafios, a Angola que se quer justa, unida e moralmente íntegra continua a precisar deles.
Jornalista Siona Júnior