
O que deveria ser apenas mais um exercício de alternância democrática dentro da UNITA transformou-se num espelho de tensões antigas, desconfianças internas e disputas de poder que ultrapassam a mera escolha de um líder. A polémica em torno das campanhas dos candidatos, associada às recentes suspensões de delegados e às acusações mútuas entre militantes, lança uma sombra sobre a saúde institucional do maior partido da oposição angolana.
É verdade que congressos partidários são, por natureza, espaços de disputa. Mas o que se observa hoje na UNITA vai além disso. As sanções disciplinares em pleno processo eleitoral, a rapidez com que surgem comunicados contraditórios e o escalar de conflitos internos revelam uma organização em que a unidade — tão proclamada nos discursos — parece frágil quando confrontada com interesses pessoais e correntes internas.
As causas desta turbulência não surgem do nada. A UNITA tem vivido um período de visibilidade política sem precedentes, especialmente após as eleições gerais mais recentes. Esse crescimento expôs divergências estratégicas antes abafadas. Há quem defenda uma postura mais moderada e institucional, enquanto outros exigem um partido mais combativo e mobilizador nas ruas. Esta clivagem ideológica, somada às ambições legítimas de quem aspira à liderança, criou um terreno fértil para disputas que agora transbordam para o público.
Contudo, são as consequências dessas tensões que merecem maior atenção. A suspensão de delegados em vésperas de congresso fragiliza a perceção de imparcialidade das estruturas internas, alimentando suspeitas de manipulação ou de tentativas de controlo do processo. Já as acusações entre militantes — algumas feitas em redes sociais, outras em declarações públicas — corroem a imagem de um partido disciplinado, sério e alternativo ao poder vigente.
Para a democracia interna da UNITA, o impacto pode ser profundo. Um partido que aspira governar um país não pode permitir que a disputa interna se recomponha apenas através de vitórias formais. É necessário respeito pelas regras, transparência nos procedimentos e capacidade de resolver conflitos com maturidade política. Caso contrário, corre-se o risco de transformar o congresso num ato de legitimação contestada, sem verdadeira reconciliação interna.
Em última análise, o congresso da UNITA será mais do que a escolha de um presidente. Será um teste à identidade do partido e à sua maturidade democrática. Se o processo terminar marcado pela exclusão, pela fragmentação ou por ressentimentos acumulados, o partido sairá enfraquecido perante o eleitorado. Mas, se conseguir transformar esta crise numa oportunidade de clarificação, diálogo e coesão, poderá emergir mais forte e mais preparado para o papel que reivindica na política angolana.
No fim, a grande questão permanece: a UNITA conseguirá demonstrar que a democracia interna não é apenas discurso, mas prática? O congresso dirá.
Jornalista Siona Júnior