
Por quê surgem acusações tão graves e, ao mesmo tempo, tão improváveis?
É a pergunta que marcou o início do mais recente turbilhão político em torno da UNITA. Circula nas redes e no discurso inflamado de certos setores a alegação de que o SINSE, o serviço de inteligência angolano, teria “assaltado” ou interferido no congresso da principal força da oposição — o histórico Galo Negro, fundado por Jonas Savimbi.
A narrativa é explosiva. Mas sustenta-se?
Segundo os próprios regulamentos do partido, delegados, concorrentes e toda a estrutura eleitoral interna são compostos por militantes da UNITA, registados, selecionados e supervisionados pelas suas comissões internas. A pergunta inevitável emerge: como poderia um organismo externo manipular um processo cuja porta de entrada é exclusiva para filiados?
E é aqui que a contradição cresce.
Se a acusação procede, então o problema já não seria apenas o alegado “ataque externo”, mas uma fragilidade interna profunda — uma incapacidade estrutural de proteger o seu próprio processo político. Por outro lado, se a acusação não passa de narrativa estratégica, então ela funciona como arma política interna para desacreditar adversários e moldar perceções entre militantes.
Num país onde a desconfiança institucional é antiga, a invocação do SINSE funciona quase como um atalho emocional: basta mencioná-lo para acionar alertas de conivência, conspiração e manipulação. Mas repetir suspeitas não as torna verdade.
A pergunta central permanece em pé:
Se o congresso da UNITA é composto a 100% por delegados do próprio partido, como se explica o discurso de que forças externas o “assaltaram”? Trata-se de uma denúncia fundamentada ou de uma narrativa usada para disputar poder interno?
Independentemente da resposta, o episódio expõe uma crise maior: a incapacidade, tanto da UNITA quanto da esfera pública angolana, de separar política de rumor, institucionalidade de suspeita, divergência interna de fantasmas externos.
O debate real, porém, continua à espera:
Quem teme quem dentro do Galo Negro — e por quê?
Jornalista Siona Júnior