Quinta-feira, Dezembro 18, 2025

CRÔNICA: SAUDADES DO MEU RAPPER GRAFITEIRO MC FÁBIO

O traço dele também ficou espalhado por Angola

Por: apostolado
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Saudades. É essa a palavra que insiste em abrir e fechar os dias, quatro anos depois da partida de MC Fábio — rapper, grafiteiro, capoeirista, gigante de presença e de coração. A saudade reina até hoje, teimosa, ocupando todos os espaços deixados por ele, como se quisesse colorir, do seu jeito, o vazio que ficou.

 

Fábio nasceu em Cabinda, terra de raízes profundas, e viveu grande parte da vida no Panguila, em Luanda. Carregava no corpo e na alma o sangue misturado de Cabinda e da Lunda, uma herança que marcava o seu ritmo e a sua arte. Cresceu entre rimas, latas de spray, rodas de capoeira e sonhos que ninguém podia censurar. Sonhou em ser underground no rap feito em português — e realizou. Era daqueles que não esperavam oportunidades: criava as próprias.

 

Eu, daqui da Ucrânia, sinto que a distância amplifica a memória. Os dias longos, frios e azuis daqui fazem tudo soar como lembrança, como se MC Fábio pudesse virar a esquina a qualquer momento e rir, do jeito barulhento e leve que só ele tinha.

O traço dele também ficou espalhado por Angola. Não foi apenas um mc da rua — foi grafiteiro com mãos de muralista. Participou no grafismo da famosa Serra da Leba, deixando ali sua marca permanente, como se quisesse que o mundo soubesse: “Eu passei aqui e deixei cor.”

 

Quem o conheceu sabe: Fábio era um grandalhão. Desses que, se tivesse nascido na América, talvez já estivesse no cinema, fazendo papel de herói — ou de vilão, daqueles que o público ama. Mas a vida real não lhe deu esse roteiro. Em vez disso, deu-lhe música, deu-lhe luta, deu-lhe arte.

 

A dor da sua partida não trouxe só lágrimas; deixou feridas que ainda ardem, especialmente em Raquel da Lomba (Mãe) — foi uma irmã, amiga, cúmplice de caminhada. Quem a vê falar dele percebe que nela Fábio ainda está vivo, inteiro. A falta que ele faz é uma ausência compartilhada, porque quem conheceu Fábio nunca mais o esqueceu.

 

Quatro anos se passaram, mas ainda parece ontem. O tempo não levou a saudade — apenas aprendeu a carregá-la. E, enquanto houver alguém lembrando, rimando, pintando ou vivendo com a intensidade que ele defendia, MC Fábio continuará aqui, do jeito que sempre foi: permanente, colorido, intransigente com os sonhos, enorme.

 

Saudades, meu irmão. Saudades para sempre.

Jornalista Siona Júnior

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