
Convido o chanceler da Alemanha a descer na praça do Nguanhâ e comer o pão caseiro — não o de vitrine europeia, mas o que nasce do calor das mãos e do rumor das madrugadas do bairro.
Porque o Sambizanga tem um jeito próprio de acordar: é o som do ferro das padarias de esquina, das bacias de alumínio batendo leve, do riso dos miúdos que correm antes mesmo do sol se arrumar no horizonte. E no meio desse coro diário, surge ele, o pão burro — humilde no nome, nobre na essência. Casca firme, miolo quente que se desfaz como lembrança boa.
Imagino o chanceler, engravatado e curioso, caminhando entre a poeira fina da praça do Nguânha, tentando equilibrar o protocolo nas pedras soltas. Ao ser recebido com um pão burro ainda fumegante, descobriria uma diplomacia mais antiga que qualquer tratado: a da comida dada com verdade.
Porque ali, no gesto simples de partir o pão, o Sambizanga ensina o que muitos gabinetes esquecem: que o sabor do mundo não se mede em economias robustas, mas na honestidade de um alimento que carrega história, suor e afeto. E talvez, ao morder a primeira fatia, o chanceler percebesse que, antes de ser burro, aquele pão é sábio — guarda na simplicidade tudo o que faz um povo permanecer de pé.
No Sambizanga, pão não é só pão. É recado. É memória. É convite.
E o pão burro — esse sim — é o melhor tradutor da alma angolana.
Jornalista Siona Júnior