
Por mais que muita gente finja surpresa, a verdade é que a vitória de Adalberto Costa Júnior na UNITA é tão previsível como engarrafamento na Samba às seis da manhã. Mas uma coisa é certa: a maneira arrasadora como o homem pode voltar a sentar-se no trono da oposição deixa meio mundo político a coçar a cabeça — e não é por causa do calor.
Os camaradas do MPLA, esses sim, podem até engolir em seco. Não porque ACJ seja um bicho-papão, mas porque o país está num ponto em que qualquer sinal de organização do lado contrário faz tremer quem anda há décadas agarrado ao volante. E esta vitória não é só vitória — é um recado. Um “estou aqui, ACJ, e não estou a brincar”.
Mas não vamos fingir que o pesadelo do MPLA é o único capítulo desta novela. Há também o outro fantasma a pairar: Pra-Já Servir Angola, do mano Abel Chivukuvuku, que desde 2017 anda a tentar furar o vidro blindado da política angolana com uma teimosia quase bíblica. O regresso dele ao ringue, agora legalizado, mete mais pressão no já apertado corredor da oposição.
E é aqui que a coisa esquenta:
a vitória de ACJ fortalece a UNITA, mas também levanta a velha pergunta — a oposição vai finalmente unir-se ou continuar a comportar-se como vizinhos que só falam quando falta água no prédio?
Porque se a UNITA continua firme, mas o Pra-Já aparece a roubar corações, votos e dissolver egos, então o “pesadelo” é partilhado. Para o MPLA, é claro — ninguém gosta de ter dois adversários crescidos no quintal. Mas também para a própria oposição, que vive entre a esperança de uma frente unida e a tentação eterna de cada líder querer ser o Messias do país.
Adalberto pode sair do congresso com moral alta, peito feito, bandeira ao vento. Abel volta ao palco com aquela pose de quem sabe que o público ainda não o esqueceu. E o MPLA? Esse vai dançar o semba político de sempre: sorriso, controlo, estratégia — e um olho aberto, que a coisa pode azedar.
No fim, a pergunta que interessa é simples:
o que é mais assustador para quem governa — um ACJ fortalecido ou um casamento político entre ele e Chivukuvuku?
Se algum dia esses dois se juntarem… eh pá, aí sim, muita gente em Luanda vai começar a ter insónia.
Até lá, continuamos a assistir ao espetáculo. Uns a rir, outros a bufar, todos a tentar sobreviver à política angolana — esse eterno filme de ação, drama e às vezes até comédia involuntária.
Jornalista Siona Júnior