
Em pleno século XXI, numa era em que a informação circula com velocidade impressionante e em que o jornalismo se reinventa a cada instante, é inquietante perceber que muitos finalistas universitários angolanos da área de Comunicação Social desconhecem algumas das figuras mais marcantes da história da imprensa nacional. Mais alarmante ainda é o facto de não saberem o que representam siglas basilares como SJA (Sindicato dos Jornalistas Angolanos) e UJA (União dos Jornalistas Angolanos) — instituições que simbolizam a luta pela dignidade, autonomia e identidade da classe jornalística no país.
Este vazio não é apenas um detalhe curricular. É um alerta.
Afinal, que tipo de profissionais estamos a formar? Que visão de jornalismo se constrói quando os estudantes chegam ao fim da formação sem reconhecer nomes que moldaram, desafiaram e defenderam a liberdade de imprensa em Angola? Como compreender o futuro da profissão sem conhecer o seu passado?
A questão recai inevitavelmente sobre o ensino. Será que as disciplinas de Introdução ao Jornalismo, História do Jornalismo e Roteiro do Jornalismo Angolano estão, de facto, a cumprir o seu papel? Ou será que muitos docentes continuam presos a abordagens teóricas, universais e distantes da realidade nacional, esquecendo-se de que formar jornalistas implica também formar memória, consciência crítica e identidade profissional?
É legítimo questionar se os professores estão a ensinar a história real do jornalismo angolano, aquela que envolve resistência, censura, coragem e sangue. Aquela que evoca figuras como Ricardo de Melo, assassinado em 1995 pela sua postura crítica e investigativa. Ou como Francisco Simons, Siona Casimiro e Gabriel Antunes, vozes que deixaram marcas profundas no jornalismo nacional, seja pela coragem, rigor, ética ou contribuição para o desenvolvimento da imprensa.
O desconhecimento dessas referências não significa apenas ignorar nomes; significa ignorar lutas, conquistas e princípios que sustentam a profissão. Significa formar jornalistas sem raízes, sem repertório e sem consciência do peso que o exercício do jornalismo carrega num país onde a liberdade de expressão tem sido historicamente disputada.
Se a universidade falha em apresentar esta história, está a falhar no seu papel essencial. É urgente que os currículos sejam revistos, que os professores assumam responsabilidade e que os estudantes se tornem mais exigentes com aquilo que lhes é ensinado. O jornalismo angolano só se fortalecerá quando a sua memória for preservada — e essa preservação começa na sala de aula.
Porque, em última análise, não se pode defender o jornalismo se não se conhece a sua própria história.
Jornalista Siona Júnior