
Nos últimos tempos, cresce a preocupação pública em torno do uso indevido de fardas da Polícia Nacional por cidadãos civis em várias zonas de Angola, sobretudo na província de Luanda. Denúncias recorrentes apontam para uma realidade inquietante: indivíduos sem vínculo comprovado às forças de defesa e segurança estariam a circular, agir e até cometer crimes trajando uniformes oficiais.
A situação, segundo várias fontes e relatos locais, intensificou-se desde a ascensão de Manuel Homem à liderança do Ministério do Interior. Moradores e activistas afirmam que se tornou mais frequente a exibição de fardas novas em posse de civis, levantando suspeitas sobre falhas no controlo, distribuição e fiscalização destes equipamentos sensíveis.
Casos alarmantes têm sido reportados nos municípios dos Mulenvos, Cacuaco e Viana, onde indivíduos armados, trajando uniformes da Polícia Nacional de Angola e do Serviço de Investigação Criminal (SIC), teriam estado envolvidos em actos violentos, incluindo homicídios de cidadãos inocentes. Em muitos destes episódios, os suspeitos são posteriormente classificados como “agentes desconhecidos”, o que aprofunda o sentimento de insegurança e impunidade.
Especialistas em segurança consideram que o uso indevido de fardamento oficial compromete seriamente a confiança nas instituições e dificulta a distinção entre agentes legítimos e criminosos. “Quando qualquer cidadão consegue aceder a uma farda, abre-se espaço para abusos graves e para a erosão da autoridade do Estado”, refere uma fonte ligada ao sector.
Perante este cenário, emergem questões cruciais: quem controla efectivamente a produção e distribuição das fardas policiais? Quais são os mecanismos de registo e entrega destes uniformes? E que medidas estão a ser tomadas para evitar que equipamentos oficiais caiam em mãos indevidas?
Até ao momento, não há esclarecimentos públicos detalhados por parte das autoridades sobre possíveis falhas no sistema logístico ou disciplinar. Entretanto, organizações da sociedade civil e activistas continuam a exigir investigações independentes, responsabilização e maior transparência na gestão dos recursos das forças de segurança.
Num contexto em que a farda deveria simbolizar autoridade, proteção e confiança, o seu uso indevido transforma-se num risco real para a população — e num teste à capacidade do Estado de manter o controlo sobre os seus próprios instrumentos de poder.
Jornalista Siona Júnior