
A história dos Espiritanos em Portugal não é linear nem tranquila — é feita de tentativas, quedas, recomeços e uma persistência que parece nascer da própria essência missionária. Tudo começou em Santarém, em 1867. Foi um início tímido, sem os frutos desejados, seguido de outras tentativas igualmente frustradas. Mas a história, paciente, haveria de encontrar em Braga, a partir de 1872, o terreno fértil onde a semente finalmente germinou.
A partir daí, o crescimento foi notável. Em Braga, Porto, Lisboa e até nos Açores, surgiram seminários e colégios que acolheram centenas de jovens. Alguns abraçaram a vida religiosa e partiram em missão, sobretudo para Angola; outros seguiram caminhos académicos, integrando-se na sociedade civil com a marca de uma formação exigente e humanista.
Mas a história também conhece rupturas. Em 1910, a Revolução Republicana abalou profundamente a Igreja em Portugal: bens confiscados, casas encerradas, missionários presos ou expulsos. Os Espiritanos desapareceram oficialmente do país, mergulhando numa década de clandestinidade e exílio. Foi um tempo duro — mas não estéril. Nesse período, destaca-se a figura incansável do Pe. José Maria Antunes, verdadeiro rosto da refundação, que nunca desistiu de negociar e sonhar o regresso.
E o regresso aconteceu. A 2 de fevereiro de 1921, nascia oficialmente a Província Portuguesa da Congregação do Espírito Santo. Era uma nova primavera. O primeiro Superior Maior após esse recomeço foi o Pe. Moysés Alves de Pinho, que mais tarde seria chamado a servir como Bispo de Angola e Congo, terminando a sua missão como Arcebispo de Luanda — numa ponte viva entre Portugal e África.
O P. José Manuel Sabença descreveu esta história com uma imagem feliz: a de uma árvore fustigada pelo vento, que, para sobreviver, se vê obrigada a aprofundar as raízes. A pequena árvore, dizia ele, não morreu — fortaleceu-se. E voltou a florescer. Essa metáfora aplica-se não apenas ao período de 1910-1921, mas também aos abalos mais recentes, como os que se seguiram ao Concílio Vaticano II e à Revolução de 25 de Abril de 1974.
Ao celebrar os 150 anos da chegada dos Espiritanos a Portugal, em 2017, D. Pedro Fernandes traçou as linhas essenciais deste projeto missionário. No centro está a missão ad gentes, com especial ligação a Angola e a tantos outros países. Ao lado, um compromisso contínuo com os jovens — nos seminários, nas paróquias, nos movimentos como os Jovens Sem Fronteiras. Soma-se a abertura aos leigos, com destaque para a LIAM e, mais tarde, para as Fraternidades Espiritanas e os Leigos Associados.
Há também uma presença forte na Igreja local, primeiro através da educação, depois pela ação pastoral e missionária. E não menos importante, uma contribuição relevante para a cultura e a ciência, com figuras marcantes em áreas como a história, a botânica, a teologia e até a vida cívica. Tudo isto sem perder o traço mais distintivo: a opção pelos mais pobres, vivida numa simplicidade concreta, próxima, quase silenciosa.
A missão, afinal, nunca se faz isoladamente. Ela constrói-se em comunhão — com a Igreja local, com outros institutos, com organismos e redes que mantêm viva a chama missionária. É nesse espírito de colaboração que os Espiritanos se ligam a diversas instituições e iniciativas, nacionais e internacionais.
É esta presença, rica e resiliente, que agora percorro durante um mês em terras portuguesas. Uma viagem que é também um reencontro com as raízes, com a memória e com um futuro que continua a desenhar-se no horizonte da missão.
Dela darei conta nas próximas crónicas.
Tony Neves, em Lisboa