
Foto gentileza Padre Tony Neves
Em tempo forte de Quaresma, começo com uma confissão: quando o Vaticano publicou as datas e locais das visitas pastorais do Papa em Itália, nem pestanejei. Li, registei, segui caminho. Mas quando chegaram as notícias das viagens apostólicas à escala do mundo, o coração mudou de ritmo. É verdade que também as visitas ao Mónaco ou a Espanha não me abanaram muito. O mesmo não posso dizer — e aí me confesso — das viagens a África, com celebrações e encontros marcados para a Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Há geografias que nos passam pelos olhos; há outras que nos atravessam a alma.
Em diversas intervenções já partilhei convicções que o tempo vem amadurecendo, à medida que surgem pormenores do que está previsto acontecer. Esta primeira viagem africana de Papa Leão XIV não é apenas uma agenda diplomática ou pastoral. É um gesto carregado de simbolismo num continente jovem, ferido e crente, onde a fé cristã cresce em número e intensidade, mas convive com desafios sociais e políticos de enorme complexidade.
Nos Camarões, os Bispos das dioceses de Yaoundé, Douala e Bamenda já publicaram vídeos transbordantes de alegria, convocando o povo para viver “momentos históricos e desafiantes”. O entusiasmo é contagiante, mas não ingénuo. O país debate-se com problemas sérios de segurança: na parte anglófona persistem tensões e lutas independentistas; no extremo norte multiplicam-se ataques bárbaros do Boko Haram, grupo fundamentalista que semeia pânico e destruição. A visita papal, neste contexto, é mais do que uma celebração religiosa: é um sinal público de proximidade e um apelo à paz.
Mas foi a Nota Pastoral dos Bispos de Angola, publicada a 2 de março no final da Assembleia Plenária da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), que particularmente me marcou. Fala-se ali do “jubiloso anúncio da visita do Papa a Angola”. Já se conhece o lema — “Peregrino da Esperança, Reconciliação e Paz” — e o respetivo logotipo. Confessam os Bispos sentir-se “mergulhados numa alegria indizível por esta terceira visita a Angola do Vigário de Cristo na Terra”.
A CEAST aproveita para oferecer um breve e luminoso encontro com a História: recorda que, na África Subsariana, Angola foi o primeiro país a acolher o Evangelho e a celebrar os primeiros Batismos cristãos; que teve o primeiro Bispo negro da história logo no início do século XVI; e que, em 1608, partiu de Angola o primeiro embaixador da África Subsariana junto da Santa Sé. Esta visita de Leão XIV acontece, além disso, na sequência dos 50 anos da independência nacional e dos 450 anos da fundação de São Paulo da Assunção de Luanda — cidade “batizada e crismada”, como poeticamente se diz.
Os Bispos sublinham o crescimento do Cristianismo em Angola e manifestam a certeza de que a presença do Santo Padre encorajará todos a unir-se na promoção da esperança, da reconciliação e da paz. Falam de sinodalidade como caminho comum, da necessidade de estudar cuidadosamente os documentos do Papa para que as suas palavras não sejam “sons passageiros”, mas orientações transformadoras de vida. E lançam um apelo à generosidade de todos, para que a visita seja organizada com dignidade e profissionalismo.
A Nota conclui com uma longa oração que invoca — como não poderia deixar de ser — a intercessão da Padroeira de Angola, a Bem-Aventurada Virgem Maria da Muxima, símbolo maior de consolo e confiança para milhões de fiéis.
O itinerário africano é denso: Argélia, de 13 a 15 de abril; Camarões, de 15 a 18; Angola, de 18 a 21; e, por fim, Guiné Equatorial, de 21 a 23. Quatro países, quatro realidades distintas, um mesmo fio condutor: a esperança que resiste.
Na abertura da Assembleia, D. José Manuel Imbamba, presidente da CEAST, resumiu com palavras simples e domésticas o que muitos sentem: “Quando um pai visita os seus filhos, a casa inteira se limpa e o coração se alegra. O Papa Leão XIV vem para nos abraçar, animar e fortalecer. Preparemo-nos para que encontre uma Angola unida, feliz e, acima de tudo, densa de esperança, paz e fraternidade entre os irmãos.”
Mantenho hoje a convicção que publiquei quando se anunciou esta viagem: reconheço a importância das deslocações papais e acredito, como muitos católicos destes países, que será um momento de graça. Mas ouso acrescentar: pode — e deve — ser também um momento de responsabilidade coletiva. Que governos e instituições saibam escutar o que ali será dito; que não reduzam a visita a fotografias protocolares ou discursos circunstanciais; que se deixem interpelar.
Porque África não é apenas destino de agenda. É promessa. É juventude. É fé viva. E, nesta rota de Leão XIV, é também espelho onde a Igreja se revê chamada a ser mais simples, mais próxima e mais profética.
06.03.2026
Tony Neves, em Roma