
A indignação tomou conta dos moradores do bairro Salina-Ngunza, no Sumbe, após imagens chocantes mostrarem alunos da Escola Soba Mulemba a realizarem provas trimestrais de joelhos e em carteiras danificadas, num ambiente escolar completamente degradado. Sem bancos suficientes, com paredes em ruínas e iluminação deficiente, os estudantes enfrentam sérias dificuldades para concluir suas avaliações, expondo a realidade precária da instituição. Encarregados de educação apelam à Inspecção da Educação e à Direcção Municipal para uma intervenção urgente. “Os nossos filhos estão a sofrer”, clamam os pais, exigindo dignidade no ensino.
O episódio, que deveria envergonhar qualquer sociedade minimamente comprometida com o futuro das suas crianças, revela muito mais do que a falta de recursos: expõe o abandono estrutural e a negligência institucional que, ano após ano, condenam milhares de alunos a aprender em condições desumanas. Não se trata apenas de salas degradadas, mas de um sistema que parece ter normalizado o inaceitável.
Permitir que crianças façam provas de joelhos não é apenas uma falha logística — é um reflexo brutal do desinteresse pelas condições básicas de ensino. A escola, que deveria ser um espaço de inspiração, segurança e desenvolvimento, transforma-se num cenário de sofrimento, improviso e humilhação. Como esperar bons resultados académicos quando o próprio ambiente escolar viola a dignidade dos estudantes?
Os relatos de pais e encarregados de educação, visivelmente revoltados, não são apenas desabafos emocionais; são um clamor legítimo por respeito e responsabilidade pública. A educação é um direito, não um privilégio. E, quando este direito é negligenciado, toda a sociedade paga o preço: no aumento da desigualdade, na perda de oportunidades e na perpetuação da pobreza.
As autoridades educativas — da Inspecção ao Ministério — não podem continuar a fechar os olhos diante de situações tão graves. Intervenções pontuais não bastam. É urgente um plano sério, estruturado e transparente de reabilitação das escolas, acompanhado de fiscalização e responsabilização. A comunidade já fez a sua parte ao denunciar. Agora, cabe ao poder público agir.
A Escola Soba Mulemba é hoje um símbolo de tudo o que precisa ser transformado. Não por escolha, mas por abandono. E se a educação é realmente prioridade, como tantas vezes se proclama, então nenhuma criança deveria ajoelhar-se para aprender — apenas para brincar, rezar ou sonhar. Nunca para fazer uma prova.
Jornalista Leonardo Ngola (Freelance)