O ARQUITECTO DA PAZ QUE DESAFIOU GENERAIS E UNIU IGREJAS: O LEGADO DE DOM ZACARIAS KAMWENHO EM ANGOLA

No final da década de 1990, Angola era o retrato de um país inviável.

Dilacerada por uma guerra civil intermitente que já durava um quarto de século, a antiga colónia portuguesa transformara-se num dos tabuleiros mais sangrentos da Guerra Fria.

De um lado, as forças governamentais do MPLA, apoiadas por Cuba e pela União Soviética; do outro, os então rebeldes da UNITA, financiados pelos Estados Unidos e pelo regime do apartheid na África do Sul.

No meio do fogo cruzado, mais de meio milhão de mortos, milhões de deslocados internos e uma população civil exausta. Foi nesse cenário de terra queimada que emergiu a figura esguia, o olhar sereno e a voz inabalável de um homem da Igreja que decidiu que o silêncio não era uma opção.

Dom Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango que faleceu na última  sexta-feira, 29 de Maio deste ano de 2026, aos 91 anos, em Luanda, entrou para a história como o homem que conseguiu o que parecia impossível: desarmar os discursos de ódio dos generais e sentar os arqui-inimigos na mesma mesa de negociações.

O púlpito como escudo contra a censura

Nascido em 1934 na pequena aldeia de Chimbundo, no planalto central do Huambo, Kamwenho compreendia profundamente as fraturas étnicas e sociais do país. Ordenado sacerdote em 1961 e elevado a bispo em 1974 — nas vésperas da conturbada independência de Angola —, ele foi o único prelado católico a testemunhar e guiar a Igreja durante todo o percurso da Angola independente.

Numa época em que criticar o governo ou a então liderança rebelde equivalia a uma sentença de morte ou ao desaparecimento político, Kamwenho adoptou uma postura de neutralidade absoluta e corajosa.

“Ele tinha uma verticalidade que desconcertava os políticos. Não era um homem de esquerdas nem de direitas; era o homem do Evangelho”, recorda o analista político angolano.

Do alto do seu púlpito na Arquidiocese do Lubango, Dom Zacarias criticava com o mesmo peso as violações dos direitos humanos cometidas pelo exército governamental e as atrocidades perpetradas pela guerrilha de Jonas Savimbi. Essa postura valeu-lhe censuras na mídia estatal e ameaças veladas, mas também conferiu-lhe a autoridade moral que nenhum líder político angolano possuía.

A aliança improvável: unindo fés contra as armas

No ano de 1999, quando o conflito atingiu um novo pico de violência pós-eleitoral, Kamwenho liderou a criação do movimento Pro Pace. No ano seguinte, operou o seu maior milagre político: a fundação do Comité Ecuménico para a Paz em Angola (COIEPA).

O comité conseguiu a proeza de unir, pela primeira vez, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST, católica), a Aliança Evangélica Angolana (AEA) e o Conselho das Igrejas Cristãs em Angola (CICA, protestante). Juntas, as igrejas que antes operavam em “ilhas” institucionais passaram a falar como um bloco único de pressão civil.

Kamwenho redigiu os célebres “Dez Mandamentos para a Paz”, um manifesto que exigia:

  • O cessar-fogo imediato e incondicional.
  • A proibição e remoção de minas terrestres que vitimavam milhares de camponeses.
  • A abertura de corredores humanitários de livre-trânsito para salvar populações famintas.
  • Um diálogo político inclusivo, que não comprasse interesses através da corrupção.

Esse ecumenismo prático e a pressão das bases católicas e protestantes asfixiaram politicamente a lógica da guerra. Historiadores locais coincidem em que o ambiente social que permitiu a assinatura do Memorando de Luena em 2002 — pondo fim definitivo à guerra após a morte de Savimbi — foi amplamente cavado pela diplomacia de batina de Kamwenho.

Sentando-se ao lado de Mandela e Xanana Gusmão

O impacto da sua liderança pacífica cruzou o Atlântico e o Índico. Em Dezembro de 2001, o Parlamento Europeu atribuiu a Dom Zacarias Kamwenho o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento.

A distinção carregava um simbolismo histórico: Kamwenho tornou-se o primeiro homem da Igreja a receber o prémio no mundo. Na África, tornou-se o segundo a erguer o galardão, seguindo os passos de Nelson Mandela. No universo da língua portuguesa, foi o segundo laureado, após o timorense Xanana Gusmão.

O prémio internacional blindou o arcebispo. A partir daquele momento, qualquer atentado à sua integridade física traria repercussões globais catastróficas para o governo de Luanda.

“Gostaria de ser lembrado apenas como o Padre Zacarias”

Apesar das honrarias em Estrasburgo e da reverência em Roma — onde privou com os Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco —, Dom Zacarias manteve até ao fim uma simplicidade que roçava o desapego.

Em Novembro de 2024, ao celebrar o seu Jubileu de Ouro Episcopal (50 anos como bispo) no Lubango, diante de uma plateia repleta de governantes, deputados da oposição e diplomatas, o arcebispo de 90 anos quebrou o protocolo e a vaidade clerical:

“O meu sentimento é apenas de gratidão. E gostava de ser lembrado pelo meu povo apenas como o Padre Zacarias.”

Os que com ele trabalharam destacam o seu “humor finíssimo” e a sua paixão pela cultura popular. Em 2016, durante as celebrações dos Missionários Espiritanos em Luanda, o velho arcebispo saltou da cadeira de honra, juntou-se à dança dos fiéis no adro da igreja e gritou: “Eu também sou do povo!”.

O aviso para os próximos 50 anos

Dom Zacarias Kamwenho reformou-se em 2009, tornando-se arcebispo emérito, mas não se retirou da vida pública. Nos seus últimos anos, o seu olhar perspicaz voltou-se para os desafios da Angola do pós-guerra: a corrupção endémica, a perda de valores éticos e a exclusão social.

Numa das suas últimas entrevistas emblemáticas, concedida em Julho de 2024, Kamwenho lançou um aviso profético às lideranças políticas que se preparam para celebrar os 50 anos de independência de Angola, em 2025:

“Houve transformações, mas também houve recuos. A nossa revisão constitucional marginaliza cérebros que podiam fazer melhor pelo país, só porque não pertencem a um partido político. Precisamos despartidarizar a nossa angolanidade. Os angolanos não podem continuar com a mesma vida de há 50 anos.”

Com a partida de Dom Zacarias, Angola perde o seu último grande mediador do século XX. O clero e o laicado herdam agora o desafio de transformar a “mina de diamantes éticos” que ele deixou no solo do país numa realidade prática de justiça social.

Para os angolanos, o “Padre Zacarias” já não pertence à hierarquia da Igreja; pertence à história de sobrevivência e reconciliação da própria nação.

Fim

Publicações Relacionadas

MORREU O PADRE JOAQUIM HATEWA, MISSIONÁRIO DE NOSSA SENHORA DE LA SALETTE EM ANGOLA

HÁ 50 ANOS: JORNAL APOSTOLADO ANUNCIAVA A NOMEAÇÃO DE DOM ZACARIAS CAMUENHO COMO BISPO AUXILIAR DE LUANDA.

ESPECIAL DOM ZACARIAS KAMWENHO: BOM DIA, SENHOR BISPO

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está bem com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Ler Mais