LUSOFONIAS ESPECIAL: PADRE TONY NEVES ESCREVE DE ROMA EM HOMENAGEM A DOM ZACARIAS KAMWENHO

Dom Zacarias Kamwenho, Arcebispo Emérito do Lubango, partiu para a Casa do Pai esta sexta feira, dia em que os cristãos celebram a Paixão e Morte de Cristo. Foi uma das figuras mais marcantes da história da Igreja de Angola, sendo o único Bispo que viveu todo o tempo de Angola independente, pois foi ordenado em 1974. A história da Igreja e do País não se pode escrever sem gravar o seu nome, as suas palavras proféticas, o seu compromisso pela justiça e pela paz.

 

Nasceu em 1934 no Chimbundo, uma aldeia da Missão do Bailundo, no interior de Nova Lisboa (Huambo). Tive a alegria de lá passar recentemente e ver que a escola tem o nome de Dom Zacarias. Levado pelos Missionários Espiritanos para o Seminário, seria Ordenado Padre por Dom Daniel Junqueira, Arcebispo de Nova Lisboa, a 9 de junho de 1961.

 

Foi desempenhando sempre cargos de responsabilidade. Seria nomeado Reitor do Seminário Maior de Cristo Rei, Nova Lisboa, cargo que ocupou até à surpreendente nomeação como Bispo Auxiliar de Luanda, em 1974, ainda em tempo colonial.

 

Roma criou a Diocese de Novo Redondo (hoje Sumbe) em 1975, sendo Dom Zacarias nomeado como seu primeiro Bispo. Ali esteve 20 anos, até rumar ao Lubango, onde foi o Arcebispo Coadjutor de Dom Manuel Franklin da Costa (1995-1997), sendo o titular de 1997 até 2009, quando se tornou Emérito, após ter atingido o limite de idade. Foi substituído por Dom Gabriel Mbilingi, Espiritano. Com um humor sempre finíssimo, disse-me um dia: ‘para provar que eu sou Espiritano de alma e coração, basta ver que todos os meus sucessores foram Espiritanos: Dom Benedito Roberto no Sumbe e Dom Gabriel Mbilingi no Lubango!’. Após deixar o Lubango ainda foi nomeado, em 2010, Administrador Apostólico da Diocese do Namibe.

 

Foi eleito Presidente da CEAST onde exerceu dois mandatos em momentos históricos muito difíceis: de 1997 a 2003, tempo que inclui o fim da guerra civil, com o Memorando de Luena assinado em 2002. Neste período de cruel guerra civil, liderou a criação do Movimento Pro-Pace (1999) e, com outras Igrejas Cristãs, lançou e presidiu ao Comité Inter-Eclesial para a Paz (COIEPA), fundado em 2000.

 

Dom Zacarias Kamwenho durante o Congresso de Reconciliação em Angola

Dom Zacarias Kamwenho durante o Congresso de Reconciliação em Angola

Ganhou, em 2001, o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, atribuído pelo Parlamento Europeu, pelos seus compromissos em favor da paz em Angola.

 

Fundou a Congregação das Irmãs Franciscanas da Visitação.

 

A Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé prestou-lhe uma sentida homenagem por ocasião dos seus 50 anos de Ordenação Episcopal, em novembro de 2024. Multiplicou celebrações e encontros nas várias Dioceses por onde passou, seja como Padre (Huambo), ou como Bispo (Luanda, Sumbe, Lubango e Namibe).

 

Há recordações que não me abandonam. Quando, em 2016, fui a Luanda ao Jubileu dos 150 anos da chegada dos Espiritanos, Dom Zacarias não faltou a nenhum dos momentos do denso programa jubilar. A Eucaristia de Encerramento foi muito solene, com milhares de pessoas, no adro da Igreja do Espírito Santo, no S. Pedro do Prenda. Quando chegou o momento de ação de graças, todos os missionários Espiritanos foram convidados a juntar-se para uma homenagem. O povo cantava e dançava, os Espiritanos faziam o mesmo e, dentre os Bispos presentes, sai Dom Zacarias, junta-se à dança e diz muito alto: ‘eu também sou Espiritano! E lá dançou até que o Presidente da Celebração avançou para o ‘Oremos Final’!

 

Partiu um amigo. Escreveu-me – era ele então o Presidente da Conferência Episcopal – o Prefácio do meu livro, ‘Angola. A Igreja Católica pela Paz’, publicado em 2001, no ano anterior ao fim da guerra civil. Concluiu assim: ‘advogamos o diálogo inclusivo, em que depostas as armas e as intimidações e a compra/venda de interesses (vulgo ‘corrupção’) todos participem do Projecto-Nação e todos se comprometam na e pela sua implantação’. Conversamos vezes sem conta, partilhamos alegrias e angústias, era sempre uma festa o nosso frequente reencontro.

 

Encontrei-o em Roma na despedida do Papa Francisco e na eleição do Papa Leão. Vi-o, com o seu habitual sorriso, na recente visita do Papa a Angola. Partiu quase sem ter tempo de se despedir, mas deixa um enorme legado, uma mina de diamantes ainda por explorar…

 

Que descanse na Paz d’Aquele em quem sempre acreditou a quem tanto e tão bem servir durante toda a sua longa vida.

 

Obrigado, Dom Zacarias.

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