Eram duas da manhã do dia 21 de Setembro, madrugada de segunda-feira desta semana que está a terminar. Não estava nem no local, nem na hora errada. Não! Estava na minha casa, no meu quarto a dormir, terminada mais uma jornada de trabalho, com a consciência tranquila de quem não faz mal a ninguém, nem representa nenhum perigo para quem quer que seja.
E menos ainda, para o Estado. Oiço um ruído e uma parte da janela a ser empurrada para o lado. Desperto. Com o reflexo das luzes do quintal, vejo o cano de uma arma a afastar o cortinado e o rosto de alguém do lado de fora. E grito: ladrãooooooo. Salto da cama, aproximo-me da janela. Vejo um indivíduo afastar-se, tentar subir no muro alto para sair por onde entrou. E continuo a gritar: ladrãooooooo.
O guarda do meu vizinho com quem divido o muro por onde entrou, vê-o também e grita: ladrãooooooo. Os seus movimentos, são de quem está muito confiante de que não corre risco, ou tem a situação sob seu controlo. Interrompe a sua elevação no muro para se escapar.
De estatura mediana, trajando um macacão cor-de-laranja, cobrindo a cabeça com uma toca azul, transportando uma mochila preta espalmada às costas, recuou em direcção à janela onde me encontrava. Num movimento rápido, levantou a AKA sem coronha a altura superior à sua, e disparou à queima-roupa. Apenas por instinto e quiçá, minha sorte, atirei-me para o chão no momento do disparo.
Não era o meu dia. Provavelmente não mesmo. Verifiquei mais tarde, que o tiro trespassou uma das barras de alumínio e o vidro da janela, fez um enorme rasgão no cortinado, furou a porta do WC e espalmou-se no chão após bater na parede, por cima do autoclismo.
Ainda no chão, reflecti rapidamente, e percebi que não tinha sido atingido. Mas imaginei que, pela reacção do bandido/assassino, o meu fim não estava longe. Tinha de reagir, porque era minha obrigação pelo menos salvar o meu filho e a mulher que estavam noutro compartimento. Assustada ela gritou e acalmei-a mandando-a fugir para o quarto do miúdo.
Tomei então a decisão de tentar persuadir quem entrou em minha casa e me queria matar, que não era necessário.
Assustado, profundamente assustado, mas não demonstrando qualquer temor, levantei-me e iniciei a negociação com o ladrão/assassino:
– Por favor, tem calma. Não precisas de matar. Diz o que queres! Tem calma.
– Dá-me dinheiro seu filho da p… senão vou te descarregar o carregador. – Respondeu o ladrão/assassino, afastando o cortinado e continuando a apontar-me a arma
– Não tenho dinheiro aqui. Tenho no carro…
– Vai buscar as chaves do carro filho da p… se não te mato. – Gritava o ladrão assassino mostrando alguma impaciência e dando conta que tinha o carregador cheio de balas…
Percebi que devia insistir nessa abordagem, porque podia ser a escapatória. Hoje, analisando o caso, deduzo que o ladrão/assassino já havia passado pela viatura que estava no quintal, utilizada pela mulher, e viu que estava trancada. Ele sabia e por isso pedia as chaves. Mas elas estavam noutra parte da casa, na cozinha interior. Podia ir buscá-las, mas decidi que em vez entregar-lhe a chave e o comando da viatura que estava no quintal, entregaria da minha, que estava estacionada na rua em frente ao portão e dizer-lhe que era lá que tinha dinheiro. Pensei apenas, jogando todas as chances para afastá-lo o máximo da possibilidade de utilizar a minha família como ‘moeda de troca’. Tinha de encontrar uma forma para obrigá-lo a seguir-me para fora de casa. Teria assim mais hipóteses para um confronto ou ludibriá-lo e quem sabe, com a chegada de apoio, de vizinhos e dos guardas desarmados do condomínio, apanhá-lo.
A pensar em tudo isso, continuei a recuar em direcção à porta do quarto escuro, pedindo-lhe calma, vendo-o trepar a janela, sempre com a arma a apontar-me. Dei cerca de seis passos e enquanto ele descia, transpus a porta e rapidamente fechei-a batendo-a com o máximo de força para assustá-lo. Rodei a chave trancando-a, e fechei-me no outro onde se encontrava a mulher e o miúdo. Temos o hábito de dormir com as portas interiores abertas e as chaves do lado de fora. Pode não ser bom, mas pelo menos neste caso, valeu-nos. Pedi a mulher e ao miúdo para baixarem, e aguardamos pelo auxílio que foi chegando as 3:30, reforçado com efectivos da Polícia Nacional. Após uma vistoria pelo quintal, foi-nos passada a informação de que podíamos abrir a porta e sair.
Nesse período, o ladrão acendeu a luz do quarto, fez uma hábil e apressada procura de pertences de valor, mas acabou apenas por levar um telefone e dois relógios. No levantamento que se seguiu na parte de trás de casa, concluiu-se que o acto foi levado à cabo por dois indivíduos: um que entrou e outro, provavelmente também armado, que fez a protecção.
O caso está entregue aos serviços de investigação criminal do município da Catumbela, com as limitações que tem. Não vi sequer qualquer recolha de elementos probatórios. Limitaram-se a recolher informação verbal das vítimas assustadas. Entretanto, na sexta-feira de manhã, por via de um número do qual na manhã do mesmo dia telefonaram para a minha mulher a pedir o código de segurança do telefone roubado, tenho quase a certeza de ter falado com quem me quis matar. Também dei conta do facto a quem está com o processo, que em resposta, me disse que para rastrear o número é preciso aguardar o cumprimento de um conjunto de procedimentos processuais que levam tempo. O mesmo tempo que o bandido/assassino também dispõe para, com toda a certeza, praticar outro(s) assalto(s) e quem sabe matar (mais) alguém.
Entretanto, dizem-me que, pelas referências que forneci à Polícia sobre o ladrão/assassino, pode tratar-se da mesma dupla que, recentemente, manietou os guardas de dois estaleiros da OMATAPALO e assaltaram também uma empresa de chineses. Ainda assim, razões não suficientes para justificar uma caçada desenfreada. A não ser que, tentaram vender-me o peixe, exactamente para justificar que se tratou de um assalto ocasional e não de uma encomenda e eu ficar nessa versão. Ou ainda, no fundo, acobertar um certo grau de satisfação porque o bandido/assassino conseguiu assustar-me e tocar onde dói, traumatizando e colocando em risco a segurança e a vida da minha família. Quiçá, alguma tristeza, porque o desfecho, que poderia ser o meu assassinato, não foi consumado. Então, porque procurá-lo e prendê-lo, se ele não concluiu o trabalho? Afinal, feitas as contas, é o quarto assalto, embora os três primeiros não tenham produzido traumas tão graves, ao ponto de termos medo da chegada da noite.
Mas esta é a realidade do país. Pedem-nos para ter confiança, asseguram-nos que a situação está sob controlo. Sentimos que é difícil no meio de tantas jogadas e, sobretudo, de tão gritante falta de meios para combater a criminalidade e quando sobe o número de jovens que se desviam para a marginalidade, por falta de emprego e de oportunidades de sustento.
Outros indicadores não abonam. O município de Benguela, por exemplo, tem um agente da Polícia Nacional para 700 habitantes. E o comando do município da Catumbela, com cerca de 180 mil habitantes, tem pouco mais de duas viaturas para trabalhar. Qualquer ministro, qualquer deputado dispõe de mais meios rolantes, que uma unidade policial. Esse, sim, é o país real, onde a criminalidade montou acampamento em qualquer esquina.
Na madrugada de segunda-feira (21) por alguns instantes, senti a presença da morte. Negociei com ela. Entendi que a vida é agora, é o momento. Adiei o ‘embarque’. Para quando? Não sei. Apenas a certeza de que ela virá um dia, tanto para mim, tanto para quem me tentou ‘despachar’, porque não conheço quem tenha sobrado para semente. Ela chega para todos. Para heróis, para chefes e servidores dos mandantes, como para bandidos/assassinos.