VIAJAR PARA A PROVÍNCIA DE CABINDA É MAIS DIFÍCIL DO QUE VIAJAR PARA CABO VERDE, SÃO TOMÉ OU ÁFRICA DO SUL.

E, para muitos cabindenses, essa frase deixou de ser exagero há muito tempo — tornou-se um retrato fiel da negligência, do desrespeito institucional e da ausência total de prioridade política.

 

Nas últimas semanas, a falta de voos privados e a instabilidade quase permanente das operações da TAAG voltaram a expor uma realidade que o governo insiste em ignorar: Cabinda continua tratada como destino secundário, sem a mínima consideração pelas necessidades de mobilidade dos seus habitantes, empresários e funcionários públicos que dependem do transporte aéreo para manter a vida económica e social da província.

 

Um desrespeito que se tornou rotina

 

A TAAG, companhia aérea de bandeira, opera como se a ligação a Cabinda fosse um favor e não uma obrigação estratégica. Cancelamentos de última hora, atrasos crónicos, overbooking e ausência de alternativas têm provocado situações humilhantes para os passageiros. Famílias impedidas de viajar, profissionais que perdem compromissos, doentes que não chegam a tempo de receber cuidados — a lista de consequências é longa, dolorosa e conhecida.

 

Mais grave ainda: a quase inexistência de voos privados, que poderiam aliviar a pressão sobre a rota e garantir maior previsibilidade, agrava o caos. Empresas desistiram de operar devido à burocracia, falta de incentivos e ausência de vontade política para abrir o mercado. Cabinda continua isolada, enquanto outras rotas internacionais são priorizadas com facilidade desconcertante.

 

Um governo que não reconhece a importância estratégica de Cabinda

 

Apesar de ser uma das províncias mais ricas do país, contribuindo há décadas de forma decisiva para o orçamento nacional, Cabinda continua fora do centro das decisões. A infraestrutura aeroportuária carece de modernização; a oferta de voos é insuficiente; e os sucessivos governos não apresentam um plano concreto para resolver o problema.

 

A percepção entre muitos cabindenses é clara: falta vontade política. Falta reconhecimento da sua importância económica, cultural e geopolítica. Falta, sobretudo, respeito.

 

Será necessária uma manifestação dos filhos de Tchiowa?

 

Perante o silêncio das autoridades e a contínua deterioração das condições de mobilidade, cresce entre a sociedade civil a ideia de que apenas uma manifestação ampla, organizada e pacífica poderá chamar a atenção do país. Uma demonstração pública da insatisfação dos “filhos de Tchiowa” serviria para recordar ao governo que a paciência se esgota e que Cabinda exige o que sempre deveria ter tido: tratamento digno, soluções concretas e respeito institucional.

 

A luta por voos regulares, seguros e acessíveis não é apenas uma reivindicação logística.

É uma luta por cidadania, dignidade e reconhecimento. Cabinda não pede privilégios — exige aquilo que qualquer província merece. E se o poder continuar surdo, a voz pública pode ser a única forma de quebrar o silêncio.

Assim, será difícil voltar a ver fisicamente a mana Domingas Celestina Daniel, Tio Esquecido, Cristóvão Luemba, Manuel José, Luís Lazaro, Maria Daniel só para citar.

Jornalista Siona Júnior

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