ANGOLA PRECISA DE UM DIA NACIONAL DO TEATRO

                                                                                           

                                                                                         Eu também apoio a criação do Dia Nacional do Teatro em Angola.

A proposta representa mais do que a instituição de uma data no calendário nacional: seria uma forma de reconhecer a história, a memória, o trabalho e o contributo de várias gerações de actores, actrizes, encenadores, dramaturgos, técnicos, produtores e demais profissionais que fizeram e continuam a fazer o teatro angolano.

 

No dia 27 de Março, assinala-se o Dia Mundial do Teatro, uma data instituída em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro. Em Angola, a efeméride é igualmente celebrada por companhias, grupos, artistas e instituições culturais. Mas permanece uma pergunta pertinente: por que razão Angola ainda não tem um Dia Nacional do Teatro dedicado especificamente aos seus actores, actrizes, grupos e profissionais das artes cénicas?

 

A discussão sobre a criação dessa data merece ser encarada como uma oportunidade para homenagear a história do teatro nacional e, ao mesmo tempo, reflectir sobre os desafios que continuam a afectar o sector.

Uma história construída por várias gerações

O teatro em Angola tem uma história longa e rica, com raízes no período colonial e uma evolução marcada pelas transformações sociais e políticas do país. Nas suas primeiras fases, recebeu influências da literatura portuguesa e esteve também ligado à Igreja Católica, sobretudo em actividades de ensino e evangelização.

 

Com o passar dos anos, os artistas angolanos foram apropriando-se das linguagens cénicas e construindo formas próprias de expressão. Depois da independência nacional, em 1975, o teatro ganhou uma nova dimensão, tornando-se também espaço de reflexão sobre a sociedade, a identidade, a cultura e os desafios políticos e sociais do país.

 

O palco passou, assim, a ser muito mais do que um lugar de representação. Tornou-se espaço de debate, memória, crítica social, criatividade e afirmação da identidade angolana.

 

Ao longo desse percurso, várias personalidades deram um contributo importante para a consolidação do teatro nacional. Entre os nomes que se destacam estão José Mena Abrantes, Adelino Caracol, Roldão Ferreira, Walter Cristóvão, Beto Cassua, Solange Feijó, Adão Luciano e Noé Wete, entre muitos outros artistas e profissionais que ajudaram a construir a história das artes cénicas em Angola.

Grupos que fizeram história

A história do teatro angolano também não pode ser contada sem reconhecer o papel desempenhado pelos grupos teatrais que levaram espectáculos aos palcos e aproximaram o teatro do público.

 

Entre os grupos que marcaram diferentes períodos encontram-se o Grupo Teatral Ngola Kiluange, Horizonte Juvenil, Anangola, Makotas, Enigma e Justiça e Paz do Santo André, Miragem Teatro, entre outros.

 

O Teatro Avenida, em particular, foi palco de diferentes gerações de artistas e grupos, constituindo um espaço importante na memória do teatro e da vida cultural de Luanda.

 

Essas experiências ajudaram a criar públicos, revelar talentos e manter viva uma tradição teatral que atravessou diferentes épocas da história de Angola.

 

Elinga e outros espaços de referência

Entre os espaços e projectos de referência está o Elinga Teatro, associado ao trabalho de José Mena Abrantes e considerado uma das referências da criação teatral em Luanda.

 

Outro nome importante é o Horizonte Njinga Mbande, companhia activa desde 1986 e responsável pela apresentação regular de peças que conquistaram públicos e contribuíram para a divulgação do teatro nacional.

 

A Fundação Arte e Cultura, através do seu auditório WYZA, também tem desempenhado um papel no apoio a projectos culturais e na criação de espaços para a apresentação de espectáculos e outras manifestações artísticas.

 

São iniciativas que demonstram que existe produção, talento e vontade de fazer teatro em Angola. Contudo, os desafios continuam a ser muitos.

Mais salas, mais apoio e melhores condições

Os fazedores de arte há muito que reivindicam melhores condições para o exercício da actividade. Entre as preocupações estão a necessidade de mais salas de espectáculos, melhores condições técnicas, maior apoio à produção cultural e mecanismos de financiamento que permitam aos grupos trabalhar de forma mais sustentável.

 

A discussão sobre a Lei do Mecenato também permanece importante para o sector cultural, sobretudo na procura de mecanismos capazes de estimular o investimento privado nas artes e na cultura.

 

Criar um Dia Nacional do Teatro não resolveria, por si só, esses problemas. Mas poderia constituir um momento anual de reflexão e mobilização em torno do sector, permitindo reunir artistas, instituições públicas e privadas, companhias, produtores, investigadores e público para discutir o presente e o futuro do teatro angolano.

 

Uma data para celebrar e preservar a memória

Um Dia Nacional do Teatro de Angola poderia ser também uma oportunidade para homenagear os pioneiros, reconhecer os profissionais em actividade, promover novos talentos e aproximar as novas gerações da história das artes cénicas nacionais.

 

Seria uma data para lembrar que, antes dos palcos actuais, existiram homens e mulheres que enfrentaram dificuldades, criaram grupos, escreveram textos, ensaiaram, representaram e levaram o teatro a diferentes públicos.

 

Por isso, a proposta merece ser discutida.

 

Angola tem uma história teatral que merece ser celebrada, preservada e transmitida às novas gerações. Criar um Dia Nacional do Teatro seria, acima de tudo, reconhecer aqueles que fizeram do palco uma das formas de expressão da nossa identidade cultural.

 

O 27 de Março continuará a ser o Dia Mundial do Teatro. Mas fica a questão: não estará na hora de Angola ter também uma data nacional para celebrar os seus actores, actrizes, drama turgos, encenadores, técnicos, grupos e todos os fazedores do teatro angolano?

 Jornalista Siona Júnior

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